O presidente do IBP, Roberto Ardenghy, alerta: o Brasil tem uma janela curta — talvez até 2030 — para acelerar a exploração de petróleo antes que a demanda global entre em queda irreversível. Se o país não resolver entraves de licenciamento e tributação, corre o risco de voltar a importar petróleo em 2037, segundo projeções da EPE.
A corrida contra Argentina, Guiana e Venezuela
A feira ROG.e deste ano no Rio recebeu 83 mil visitantes e 650 expositores, com delegações de Noruega, EUA, China e outros seis países. O interesse é real: o Brasil oferece pré-sal crescente, democracia estável e distância dos conflitos do Oriente Médio.
Mas a concorrência não espera. A Guiana já produz 800 mil barris por dia. A Argentina avança no Vaca Muerta. A Venezuela retoma projetos. “Não estamos sozinhos nesse mundo, a gente disputa investimento com outros países”, resume Ardenghy.
O entrave central citado pelo setor é a velocidade do licenciamento ambiental. Projetos travados em análises longas fazem o capital migrar para vizinhos com processos mais ágeis.
Por que o gás natural virou questão de segurança alimentar
O Brasil é grande produtor de alimentos, mas importa 85% dos fertilizantes que consome. A produção de ureia e amônia depende de gás natural como matéria-prima. Mais gás doméstico significa menos dependência externa no campo.
Essa conexão entre energia e agronegócio muda a equação: mesmo que a frota elétrica reduza consumo de gasolina e diesel (hoje 80% do petróleo vai para mobilidade), a demanda por petroquímica e fertilizantes deve crescer com a expansão agrícola.
Foz do Amazonas: o que já se sabe e o que falta
A descoberta recente da Petrobras confirma a existência de um sistema petrolífero na região. Ainda não há estimativa de volume recuperável. Faltam dados sobre pressão do reservatório, porosidade, continuidade das camadas e qualidade do fluido — se é mais gás ou petróleo leve, teor de enxofre e nitrogênio, viscosidade.
A estatal solicitou licença para perfurar mais três poços de avaliação. Só com esses dados será possível dimensionar o potencial real da fronteira equatorial.
A conta do pré-sal: emissões 60% abaixo da média mundial
O setor argumenta que a descarbonização não exige abandonar o petróleo, mas produzir com menor intensidade de carbono. Os números do pré-sal brasileiro sustentam a tese:
- 10 kg de CO₂ por barril na média do pré-sal
- 8 kg nos melhores campos
- 25 kg na média mundial
Nos últimos três anos, as emissões do setor caíram 14% mesmo com produção crescente. O Acordo de Paris é “tecnologicamente agnóstico” — cada país define seu caminho de redução.
Fracking no Brasil: mito ou solução para fertilizantes?
Ardenghy cita a Bacia do Parecis, no Mato Grosso, coração do agronegócio, como candidata a fraturamento hidráulico. “Não existe nenhuma literatura que prove contaminação de lençóis freáticos”, afirma, citando EUA, Argentina, Canadá, China e Índia como exemplos de uso seguro em larga escala.
Uma planta de fertilizantes próxima à produção de gás não convencional eliminaria custos logísticos de importação. O debate, porém, esbarra em resistência política e ambiental no Congresso.
O imposto de exportação que irritou o setor
O governo criou imposto de exportação de petróleo para financiar subsídios à gasolina e diesel. Cálculo do IBP: o subsídio custaria R$ 40 bilhões até dezembro; a arrecadação extra de royalties e participação especial já chega a R$ 45 bilhões no mesmo período.
“O governo já tinha recursos assegurados no regime fiscal brasileiro para atender essa necessidade”, diz Ardenghy. A medida foi vista como quebra de contrato regulatório.
Abastecimento: atenção até outubro, incerteza depois
O mercado está abastecido até meados de outubro. Após isso, dependerá de importações adicionais. O Oriente Médio não é apenas fornecedor de petróleo bruto — grandes refinarias na Arábia Saudita e Emirados Árabes, além da Rússia, suprem diesel global. Qualquer disrupção nesses polos afeta o Brasil.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se o Brasil aproveita a janela: (1) celeridade do Ibama nas licenças de Foz do Amazonas e novos blocos; (2) tramitação do marco legal do gás e do fracking no Congresso; (3) manutenção ou revisão do imposto de exportação no próximo Orçamento. Se o licenciamento não acelerar até 2026, projetos de longo ciclo perdem viabilidade econômica — e o país entra na década de 2030 com produção em declínio e dependência externa crescente.
