Economia

Arroz no Sul atinge menor área desde 1982: o que isso significa para seu bolso e para as importações

Lavoura de arroz no Sul do Brasil com menor área plantada desde 1982
Área de arroz no Sul cai para menos de 1 milhão de hectares, menor nível em 45 anos.

A área de plantio de arroz na região Sul cairá para menos de 1 milhão de hectares na safra 2026/27, o nível mais baixo em mais de quatro décadas. A consequência imediata: a produção nacional despenca de 12,8 para 10,8 milhões de toneladas, enquanto o consumo global segue em alta. O que ainda não está no radar da maioria dos analistas é o efeito cascata sobre o trigo e as carnes.

Os números vêm do primeiro levantamento da Conab para o novo ciclo. Mas o cenário não se limita à lavoura brasileira.

O aperto global que poucos estão calculando

A FAO registrou alta de 0,5% no índice de preços do arroz em seu último relatório. Não é um movimento isolado. A produção mundial projeta 534 milhões de toneladas para 2026/27, contra consumo estimado em 540 milhões. Os estoques globais encolhem para 197 milhões de toneladas — o menor patamar em anos.

Esse desequilíbrio entre oferta e demanda cria um piso de preços que não deve ceder tão cedo. E o Brasil, historicamente exportador líquido, precisará buscar arroz no exterior para fechar as contas internas.

Trigo: a conta da importação vai subir

Se o arroz preocupa, o trigo impõe um desafio ainda maior. A área plantada no país recua para 1,59 milhão de hectares — a menor em nove safras. No Sul, berço da produção nacional, são apenas 1,58 milhão de hectares, o menor espaço desde o ano 2000.

Resultado: a colheita brasileira deve ficar em 5,7 milhões de toneladas. Para suprir a demanda interna, o país precisará importar pelo menos 7,1 milhões de toneladas em um momento de preços pressionados lá fora.

De onde virá o trigo — e a que custo

A Argentina, principal fornecedora brasileira, vê sua disponibilidade para exportação cair de 19 para 15 milhões de toneladas. A União Europeia, castigada por calor extremo e seca, reduz a produção de 145 para 134 milhões de toneladas, com apenas 31 milhões disponíveis para exportação.

A Rússia, maior exportadora mundial, tem grão, mas enfrenta gargalos logísticos decorrentes da guerra com a Ucrânia. Esse vazio de oferta eleva os preços em todas as origens alternativas.

  • Argentina: exportações projetadas em 15 milhões de toneladas (eram 19 milhões)
  • União Europeia: 31 milhões de toneladas disponíveis para exportação
  • Rússia: estoques altos, mas logística travada

O que mais está no radar dos mercados

O relatório do USDA previsto para quarta-feira (30) trará os estoques finais da safra 2025/26 — dado que pode mover as cotações nos próximos dias. Paralelamente, carnes e leite mantêm alta no campo, mesmo com barreiras sanitárias na China e na União Europeia.

No complexo soja e milho, a produção mundial de soja sobe para 442 milhões de toneladas, mas o esmagamento também acelera. A safra americana está praticamente garantida, enquanto Brasil e Argentina ainda passam pelo teste do El Niño. O milho global projeta 1,29 bilhão de toneladas, com estoques caindo para 272 milhões.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar os preços nos próximos meses: o clima no Cone Sul durante o desenvolvimento das lavouras, o ritmo de compras da China por proteínas e grãos, e a capacidade logística da Rússia de escoar sua safra apesar do conflito. Para o empresário brasileiro, a equação é clara: menor produção interna + oferta global apertada + câmbio volátil = pressão contínua sobre custos de matéria-prima e, potencialmente, sobre a inflação de alimentos no varejo.