Economia

O segredo que nenhum empresário conta sobre o fim da escala 6×1…

Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho da Multilaser, em traje executivo, defendendo fim da escala 6x1
Alexandre Ostrowiecki defende publicamente o fim da jornada 6x1 no setor industrial

Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho da Multilaser, quebrou o silêncio que une a maioria dos grandes industriais: defende abertamente o fim da jornada 6×1. A declaração destoa do discurso padrão do setor e levanta uma pergunta incômoda — por que tão poucos ousam dizer o mesmo?

Para o executivo, manter um dia único de folga semanal na era da inteligência artificial e da robótica avançada é “inaceitável”. A frase ecoa em um momento em que o debate sobre redução de jornada ganha força no Congresso e nas centrais sindicais.

O custo que ninguém calcula direito

Ostrowiecki não nega que a mudança tenha preço. Reconhece impacto econômico e admite que parte pode chegar ao consumidor. Mas descarta demissões em massa e aumentos expressivos nos preços finais.

O argumento central: toda redução histórica de jornada provocou alarmes semelhantes. A economia sempre se adaptou. O custo, segundo ele, “vale a pena pela enorme melhoria na qualidade de vida do trabalhador”.

O empresário vai além e aponta o verdadeiro vilão da competitividade nacional. Não é o descanso do trabalhador, mas um conjunto conhecido:

  • Custo Brasil — burocracia, logística deficiente, insegurança jurídica
  • Carga tributária — impostos altos sobre o consumo
  • Juros estratosféricos — custo de capital entre os maiores do mundo

“Quem se preocupa com competitividade deveria começar cortando privilégios do Estado, não o descanso do trabalhador”, resume.

A conta que não fecha: importados sem imposto vs. indústria nacional

Outro ponto que tira o sono do executivo é a lei que zerou o imposto de importação para encomendas de até US$ 50 — a chamada “taxa das blusinhas”. A conta que ele apresenta é direta:

Uma fábrica no Ceará paga cerca de 30% do preço em impostos federais ao longo da cadeia. O concorrente em Shenzhen, na China, entra agora com zero imposto federal. Some-se a isso juros de 15% ao ano no Brasil contra 3% na China, mais burocracia e multas.

“Não há possibilidade de a empresa brasileira sobreviver nessa faixa de produto”, sentencia. A crítica não mira o consumidor endividado que busca o mais barato, mas a política pública que cria assimetria tributária.

O que os números revelam sobre o varejo

A preocupação com o consumidor não é retórica. Dados da CNC mostram 82% das famílias brasileiras com dívidas a vencer — patamar recorde. A Serasa registra quase 84 milhões de negativados em agosto, maior nível da série histórica.

Ostrowiecki vê o consumidor “no limite”. A reação da Multilaser tem sido disciplina: seguro de crédito nas vendas, gestão rigorosa de recebíveis, diversificação de canais e portfólio com produtos acessíveis.

Mas ele avisa: “Não existe engenharia comercial que compense juro de agiota por muito tempo”.

Casas Bahia: o termômetro do setor

O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia no mês passado acendeu alertas. A Multilaser está entre os grandes fornecedores da varejista. O impacto contábil foi provisionado em R$ 31 milhões, pouco mais de 2% da carteira de recebíveis.

A exposição foi contida porque a maior parte das vendas conta com seguro de crédito. Ainda assim, o episódio reforça a visão de que o risco de crédito hoje é maior do que os modelos capturavam.

O Estado que nunca faz dieta

Questionado sobre o que espera do governo a partir de 2027, Ostrowiecki não titubeia: coragem para atacar a raiz do problema — o crescimento automático e obrigatório do gasto público.

“O Estado brasileiro é o único agente da economia que nunca faz dieta. Quando falta dinheiro, ele aumenta a conta dos outros.”

A receita que ele desenha passa por reforma administrativa, desvinculação de despesas, revisão de supersalários e penduricalhos. Sem isso, diz, nenhum arcabouço fiscal se sustenta e os juros continuam “envenenando a economia”.

Zona Franca: o modelo que funciona

Com fábrica em Manaus, o empresário usa a Zona Franca como prova de conceito. Quando a tributação é razoável, a indústria brasileira compete com qualquer uma do mundo.

“Redução de imposto não é o governo dando dinheiro para ninguém. É simplesmente deixar de cobrar a facada cheia.”

Não defende privilégio para Manaus, mas redução geral nos tributos sobre o consumo. A alternativa, alerta, é a migração acelerada para o comércio cross-border — marketplaces estrangeiros vendendo direto ao brasileiro, gerando empregos na China e destruindo-os aqui.

O que observar daqui pra frente

Seis meses. Esse é o prazo que a própria lei da “taxa das blusinhas” estabelece para o governo medir efeitos sobre emprego, indústria e arrecadação. Ostrowiecki promete cobrar esses relatórios.

Enquanto isso, dois movimentos merecem atenção: o avanço da PEC que pode encerrar a escala 6×1 no Congresso e a velocidade com que varejistas nacionais reestruturam dívidas. A conta do “custo Brasil” continua aberta — e quem paga, como sempre, é quem produz e quem consome.