O presidente Luiz Inácio Lula da Silva evitou qualquer menção crítica às governadoras Raquel Lyra (PSDB-PE) e JHC (PL-AL) durante agendas oficiais em seus estados nesta semana. O silêncio estratégico contrariou a expectativa de petistas e aliados locais, que esperavam um posicionamento mais duro contra adversários políticos em plena pré-campanha municipal.
A ausência de ataques diretos não passou despercebida. Em Recife e Maceió, lideranças do PT relataram desconforto com a postura conciliadora do Palácio do Planalto. A decisão expõe o dilema entre a governabilidade federativa e a mobilização da base eleitoral.
O que aconteceu nos palanques
Na terça-feira (21), Lula participou de entregas de unidades habitacionais do Minha Casa, Minha Vida em Recife, ao lado de Raquel Lyra. No dia seguinte, esteve em Maceió para anúncios de infraestrutura hídrica com JHC. Em nenhum dos dois eventos o presidente fez referências a disputas partidárias ou críticas às gestões estaduais.
O roteiro oficial priorizou anúncios de recursos federais: R$ 1,2 bilhão em investimentos habitacionais para Pernambuco e R$ 340 milhões em obras de abastecimento d’água para Alagoas. Discursos focaram em parceria institucional e resultados concretos.
Por que a base ficou frustrada
Dirigentes petistas nos dois estados vinham cobrando publicamente um tom mais combativo. O argumento: ambos os governadores são adversários declarados do projeto político de Lula para 2026 e comandam máquinas estaduais que podem dificultar candidaturas aliadas nas eleições municipais de outubro.
- Raquel Lyra migrou do PSDB para o PSD, mas mantém alinhamento com a oposição de centro-direita
- JHC, do PL, é um dos principais nomes da direita nordestina e potencial presidenciável
- Em 2022, ambos palanques apoiaram Jair Bolsonaro no segundo turno
Para vereadores e pré-candidatos do PT, a presença presidencial sem contraponto político funciona como um “aval tácito” às gestões estaduais. “Fica difícil explicar pro eleitor por que o governador é adversário em Brasília, mas parceiro no palanque”, resume um deputado federal pernambucano sob reserva.
O cálculo do Planalto
A avaliação interna do governo federal aponta para a necessidade de manter canais abertos com governadores de oposição. A aprovação de pautas econômicas no Congresso depende, em parte, da articulação com bancadas estaduais controladas por Lyra e JHC.
Além disso, o Nordeste concentra 54 milhões de eleitores — o maior colégio eleitoral do país. Perder capilaridade administrativa na região por disputas ideológicas poderia comprometer a execução de programas prioritários como o Novo PAC e o Bolsa Família.
Ministros palacianos argumentam que o “pragmatismo republicano” não significa alinhamento automático. Ressaltam que o PT mantém candidaturas próprias nas capitais Recife e Maceió, disputando diretamente com os grupos dos atuais governadores.
O que observar daqui pra frente
O teste real virá nas convenções partidárias de julho e na campanha de rua em agosto. A expectativa é que Lula grave inserções de rádio e TV para candidatos petistas nas duas capitais, o que marcaria a diferença entre o presidente da República e o cabo eleitoral de partido.
Enquanto isso, Raquel Lyra e JHC colhem os dividendos da foto ao lado do presidente: reforçam a imagem de gestores com acesso direto a Brasília, independentemente de coloração partidária. Para o eleitor médio, a mensagem visual é de união — não de confronto.
