O Brasil gasta mais do que arrecada há anos e a fatura recai, de forma desproporcional, sobre quem tem menos defesa. A decisão não é entre cortar ou proteger os vulneráveis, mas entre organizar o ajuste agora ou deixar que a crise o faça de modo brutal.
Quando o desequilíbrio fiscal persiste, a dívida sobe, os juros acompanham e o crédito fica mais caro. Empresas freiam investimentos e contratações. O resultado volta para a população como inflação, carga tributária maior ou serviços públicos deteriorados.
O imposto invisível que pesa no bolso dos mais pobres
A desorganização das contas públicas funciona como um tributo sem lei e profundamente regressivo. Quem ganha menos tem menos proteção contra a alta de preços, paga mais caro pelo crédito e depende mais do Estado para saúde, educação e assistência.
Os números mostram a urgência: seria necessária uma melhora estrutural de aproximadamente 3% do PIB ao longo dos próximos anos para reverter a trajetória. Não se resolve com medidas isoladas nem com gradualismo que só adia o problema.
Por que o adiamento saiu mais caro em 2024
O cenário externo mudou. Com dívidas elevadas nas economias desenvolvidas, o custo do capital subiu e os emergentes ficaram mais expostos. O Brasil precisa reduzir os desequilíbrios que hoje absorvem parcela relevante da poupança privada.
Enquanto o ajuste não vem, crescem emendas parlamentares e benefícios setoriais. Impostos e juros permanecem altos, os serviços não melhoram e poucos continuam se beneficiando do status quo.
A ordem das medidas revela os valores do ajuste
Antes de pedir sacrifícios à população, o Estado precisa enfrentar os privilégios que custam caro e beneficiam poucos. A lista do que deve ser revisto no topo da pirâmide inclui:
- Supersalários acima do teto constitucional
- Subsídios sem objetivo claro ou avaliação de resultado
- Benefícios tributários jamais mensurados
- Penduricalhos que incham a folha sem contrapartida
Eliminar esses itens sozinho não entrega os 3% do PIB necessários. Será preciso alterar regras que fazem despesas obrigatórias crescerem acima da renda do país. Mas começar pelo topo sinaliza justiça e aumenta a legitimidade do esforço.
Gastar melhor é a outra face de gastar menos
Experiência no Tesouro Nacional ensina: orçamento sem folga corta o que é mais fácil de interromper, não o que é menos útil. Obras param, programas são adiados. Espaço fiscal protege o serviço público da improvisação.
Cada política deve responder a três perguntas: quem recebe, quanto custa e que resultado produz. O que funciona deve ser preservado; o restante, corrigido ou encerrado. Controlar o gasto e melhorar sua qualidade são a mesma tarefa.
O que contas organizadas destravam na economia real
Quando o país acredita que a dívida será controlada, o prêmio de risco cai. Se a inflação permitir, criam-se condições para juros mais baixos. Empresas financiam projetos em prazos mais longos, investimentos saem da gaveta e empregos são criados.
Para as famílias, significa salário mais protegido e crédito menos caro. Recursos podem ser dirigidos para o que muda destinos: primeira infância, aprendizagem, prevenção de doenças e qualificação profissional — essencial num mercado transformado pela tecnologia.
O roteiro político que falta ser construído
Não há “balas de prata”. Um ajuste crível depende de cinco passos encadeados: apresentar o programa completo com prioridades e cronograma; formar maiorias em torno de critérios claros, começando pelos privilégios; aprovar um núcleo que assegure consistência fiscal; implementar com regras e prazos definidos; publicar o que se economizou e o que melhorou.
O Congresso pode rejeitar medidas, criar exceções ou diluir efeitos. Credibilidade não vem apenas de um número ambicioso, mas da qualidade das medidas, da maioria política e da preservação do resultado. Toda flexibilização precisa ser compensada.
O que observar daqui para frente
O brasileiro não rejeita responsabilidade fiscal. Rejeita pagar mais enquanto poucos mantêm benefícios sem contrapartida. Um ajuste honesto troca inflação por estabilidade, privilégio por prioridade e desperdício por melhores serviços. Acompanhe se o governo apresentará o pacote completo de uma vez, se a proteção aos mais pobres será blindada por lei e se haverá mecanismo público de prestação de contas sobre cada real economizado. Sem esses três pilares, o risco é de mais um ajuste pela metade — e a conta, como sempre, chegando para quem menos pode se defender.
