Justiça

STF no limite: o racha que ninguém comenta e o erro histórico da ONU

Ministros do STF Gilmar Mendes, Luiz Fux e Dias Toffoli em sessão tensa no plenário
Crisis no Supremo expõe racha entre ministros e ameaça equilíbrio institucional

A tensão no Supremo Tribunal Federal atingiu um ponto de ruptura que poucos ousam descrever nos bastidores de Brasília. O que antes era divergência jurisprudencial virou confronto pessoal entre ministros. E o desfecho pode redefinir o equilíbrio de poder nos próximos meses.

No centro do furacão, três nomes concentram a atenção: Gilmar Mendes, Luiz Fux e Dias Toffoli. A dinâmica entre eles expõe uma disputa silenciosa por protagonismo que ultrapassa o plenário.

A única mulher no meio do fogo cruzado

Cármen Lúcia ocupa posição singular na Corte. Única ministra entre dez homens, ela evita os holofotes das confrarias políticas e não aderiu ao circuito de eventos internacionais frequentado por pares. Essa distância, contudo, não a protege dos efeitos colaterais.

Enquanto a bancada masculina acumula atritos públicos, a presidente do STF entre 2016 e 2018 mantém postura técnica. O contraste expõe duas formas de exercer o poder: uma baseada em articulação constante, outra na contenção institucional.

O bedel que ninguém nomeou

Gilmar Mendes assumiu, na prática, papel de fiscal interno da Corte. Intervém em processos alheios, cobra prazos, questiona condutas de colegas. A atuação gera desconforto: não há previsão regimental para essa função.

Se o cargo existisse oficialmente, o ocupante seria o servidor mais demandado de Brasília. A ironia revela o vazio de liderança colegiada. Sem presidente forte, o vácuo é preenchido por quem tem mais tempo de Casa e menos pejo em avançar sobre atribuições alheias.

Ciúme institucional disfarçado de princípio

A raiz dos embates não é doutrinária. É pessoal. Disputas por precedência em julgamentos, espaço na mídia, influência nas nomeações. O que os ministros chamam de “defesa da instituição” frequentemente mascara a defesa de territórios individuais.

O cenário lembra conselhos de administração onde acionistas majoritários travam a governança. O prejuízo recai sobre a previsibilidade das decisões — ativo essencial para investidores e empresários que dependem de segurança jurídica.

O precedente da ONU: quando o erro vira história

Em setembro de 1982, o general João Figueiredo discursou na Assembleia-Geral da ONU. O New York Times publicou editorial elogioso no dia seguinte. O texto começava assim: “Está certo o presidente José Figueiredo…”.

O nome era João. O erro passou despercebido pela diplomacia brasileira que, por meses, cultivou o editor responsável pelo texto. A gafe entrou para os anais como símbolo da irrelevância prática dos discursos brasileiros na tribuna mundial.

1964: o editorial que anteviu o fim

Vinte anos antes, em 3 de abril de 1964, o mesmo jornal cravou: “Fim para Goulart”. O editorial classificava o presidente de “incompetente” e “irresponsável”. O autor provável: Herbert Matthews, lendário correspondente que encontrou Fidel Castro vivo na Sierra Maestra quando o governo cubano o dava como morto.

Matthews cobria a América Latina com acesso direto a atores decisivos. Seu texto não apenas noticiou — sinalizou ao establishment americano que a transição no Brasil era irreversível. A imprensa estrangeira, às vezes, lê o mapa antes dos próprios protagonistas.

O que observar daqui para frente

No STF, o próximo movimento depende de quem piscar primeiro. A aposentadoria compulsória de Rosa Weber (outubro de 2023) e a chegada de Flávio Dino e Paulo Gonet alteraram a correlação de forças. O calendário de 2024 traz julgamentos sensíveis: marco temporal, descriminalização de drogas, responsabilidade civil de plataformas.

Para quem acompanha o risco-Brasil, o termômetro não está nos votos — está na capacidade da Corte de decidir sem rachar. Enquanto houver bedel autoempossado e alfa disputando território, a previsibilidade segue refém de egos. A lição da ONU vale para o Planalto e para a Praça dos Três Poderes: discursos não mudam a realidade. A execução, sim.