Economia

Nubank mira Monzo: compra de R$ 68 bi pode mudar o tabuleiro global

Logos do Nubank e Monzo lado a lado com seta de fusão e valores em bilhões
Nubank negocia compra do Monzo por até R$ 68 bilhões em dinheiro e ações

O Nubank colocou o Monzo na mira e as conversas já envolvem cifras que superam os R$ 68 bilhões. A aquisição do banco digital britânico, se confirmada, seria o maior movimento internacional da fintech brasileira até aqui. Mas por que o maior rival do Revolut aceitaria vender justamente agora?

A Nu Holdings, controladora do Nubank, abriu negociações preliminares para adquirir 100% do Monzo. A proposta prevê pagamento em dinheiro e ações, avaliando o alvo entre 8 e 10 bilhões de libras — um prêmio substancial sobre os 4,5 bilhões de libras da última rodada, em 2024. Morgan Stanley e Qatalyst assessoram o lado britânico.

Os números que justificam o apetite

O Monzo encerrou o ano fiscal de março de 2026 com lucro antes de impostos de 87,3 milhões de libras (cerca de R$ 600 milhões), alta de 44% ano a ano. A receita saltou 39%, atingindo 1,7 bilhão de libras (R$ 11,6 bilhões). A base de 16 milhões de clientes, concentrada no Reino Unido, entrega rentabilidade — algo raro no setor.

  • Valuação discutida: £ 8 bi a £ 10 bi (R$ 55 bi a R$ 68,7 bi)
  • Última valuação (2024): £ 4,5 bi (R$ 30,9 bi)
  • Clientes: 16 milhões (majoria no UK)
  • Receita FY26: £ 1,7 bi (+39%)

Apesar dos resultados sólidos, a fintech vive à sombra do Revolut, que já soma 80 milhões de usuários em mais de 40 países. Essa disparidade de escala empurrou o Monzo para buscar alternativas de capital.

Turbulência interna abriu a porta

O momento das conversas não é coincidência. No ano passado, investidores de peso como Accel e Iconiq lideraram uma rebelião interna após a saída abrupta do CEO TS Anil. Exigiram a queda do presidente do conselho e mais assentos no board. A nova CEO, Diana Layfield, assumiu em fevereiro cortando operações nos EUA e acelerando a expansão na Europa — Irlanda e Espanha estrearam sob sua gestão.

Paralelamente, o Monzo flertava com fundos de private equity para vender até 15% da empresa e injetar caixa. Havia também a opção de uma rodada de venture capital tradicional. A entrada do Nubank, contudo, muda radicalmente o xadrez: oferece saída total aos atuais acionistas e enterra, de vez, o sonho da Bolsa de Londres de ter o Monzo como “estrela” de um IPO doméstico.

O que o Nubank ganha com a jogada

Para o banco brasileiro, avaliado em US$ 65 bilhões com 140 milhões de clientes nas Américas, a compra resolve dois gargalos de uma vez: entrada imediata no mercado europeu regulado e aquisição de uma licença bancária UK madura. O Nubank já tem licença nos EUA e mira expansão global; o Monzo entrega tecnologia, marca forte e uma base que já lucra.

A sinergia tecnológica é outro ativo. O Monzo tem investido em diversificação — carteira de crédito, eSIMs, marketplace — áreas onde a expertise de produto do Nubank pode escalar rápido. Do lado britânico, o aporte de capital e a gestão de risco da Nu Holdings tiram a pressão por crescimento a qualquer custo.

Cenários para os próximos meses

O desfecho não é garantido. As negociações estão em estágio inicial e o Monzo mantém as conversas com fundos de private equity como plano B. Se a venda avançar, haverá escrutínio regulatório no Reino Unido e no Brasil, além da aprovação de acionistas minoritários de ambos os lados.

Para quem acompanha o setor, três sinais merecem atenção nas próximas semanas: a definição da estrutura de pagamento (percentual de ações vs. caixa), a reação dos investidores rebeldes do Monzo à oferta e eventuais movimentos defensivos do Revolut ou de outros grandes bancos europeus. O tabuleiro global de fintechs acaba de ganhar uma peça pesada — e o xeque-mate pode vir de São Paulo.