Economia

Milei comemora vitórias macro, mas conta chega para o bolso do argentino

Javier Milei sorri diante de gráficos econômicos positivos enquanto argentinos enfrentam queda no consumo e alta da pobreza
Milei celebra superávit fiscal e inflação em queda, mas ajuste fiscal penaliza população com recessão e pobreza.

A Argentina fechou o primeiro ano da gestão Javier Milei com superávit fiscal e inflação em desaceleração, conquistas celebradas pelo mercado. O problema é que o ajuste necessário para chegar lá derrubou o consumo, elevou a pobreza e travou a atividade econômica real.

O governo exibe as planilhas como troféu: contas públicas no azul pela primeira vez em mais de uma década e reservas internacionais recompostas. Por trás dos gráficos, porém, o varejo amarga quedas de dois dígitos e a indústria opera com ociosidade recorde.

O preço do superávit primário

O ajuste fiscal foi brutal e rápido. Corte de subsídios energéticos, paralisação de obras públicas e congelamento real de salários do setor público compuseram a receita. O resultado contábil apareceu, mas a atividade produtiva sentiu o baque imediato.

Dados de institutos privados mostram que o poder de compra dos assalariados formais recuou para patamares de duas décadas atrás. A classe média, motor histórico do consumo interno, reduziu drasticamente gastos supérfluos e até essenciais.

Inflação cai, mas custo de vida não perdoa

A desinflação é o trunfo mais forte da narrativa oficial. A variação mensal do IPC saiu de dois dígitos para níveis próximos de 2,5% no fim do ciclo. Tecnicamente, é um feito. Na prática, o acumulado em 12 meses ainda corrói poupanças e planejamento familiar.

Aluguéis indexados, tarifas de transporte e energia reajustadas acima da inflação oficial mantêm a pressão orçamentária. O alívio nos preços de gôndola não compensa a perda de renda nominal.

  • Consumo de massa: queda contínua há 12 meses consecutivos.
  • Construção civil: atividade paralisada por corte de verbas federais.
  • Indústria automotiva: ociosidade acima de 50% da capacidade instalada.

O dilema do investidor externo

Para o capital financeiro, o cenário é atrativo: juros reais positivos, risco-país em queda e governo comprometido com ortodoxia. Os títulos soberanos em dólar valorizaram forte, rendendo ganhos expressivos a quem apostou na virada.

Mas o investimento produtivo — fábricas, máquinas, logística — segue estagnado. A incerteza regulatória, a recessão profunda e a falta de crédito barato impedem a formação de capital fixo. O dinheiro entra, gira no financeiro e sai; não cria empregos estruturais.

Setores que resistem e os que ruíram

O agronegócio, beneficiado pelo câmbio e pela demanda externa, sustenta o superávit comercial. Mineração e energia (Vaca Muerta) atraem projetos de longo prazo. São ilhas de prosperidade num mar de retração.

Do outro lado, o comércio de rua, serviços pessoais e pequenas indústrias nacionais enfrentam falências em série. A informalidade cresce como válvula de escape para desempregados formais.

O que observar nos próximos trimestres

A sustentabilidade do modelo depende de duas variáveis sensíveis: a capacidade de o governo reativar o crédito privado sem reacender a inflação e a tolerância social a mais um ano de renda comprimida. Eleições legislativas de meio de mandato testarão o capital político restante.

Se a recuperação em “V” não vier no segundo semestre, o superávit fiscal pode virar superávit recessivo — bonito no balanço, insustentável nas ruas. O empresário que olha para a Argentina hoje deve separar o ativo financeiro do ativo real: o primeiro brilha, o segundo sangra.