Os principais pré-candidatos à Presidência usaram a sexta-feira (25) para desenhar, na prática, as primeiras linhas de seus programas de governo. O recado mais claro veio do setor que mais movimenta dinheiro hoje: as apostas online.
Enquanto Lula (PT) prometeu extinguir as bets e Flávio Bolsonaro (PL) mirou no “Tigrinho” e cassinos virtuais, Augusto Cury (Avante) propôs taxação pesada — hoje em 12%, contra 18% dos alimentos e 32% de remédios. Três abordagens distintas para um mercado que, segundo o Ministério da Fazenda, moveu R$ 240 bilhões só em 2024.
O tabuleiro das bets: proibição, taxação ou regulação?
O fim das apostas, defendido por Lula, teria impacto imediato na arrecadação prevista para 2025 — estimada em R$ 12 a 15 bilhões — e na valoração de operadores que já pagaram outorga de R$ 30 milhões. A taxação agressiva sugerida por Cury, por outro lado, pode empurrar o mercado para a informalidade.
Para o investidor, a dúvida central não é ideológica: é jurídica. Qual das propostas sobrevive a uma ADI no STF? O histórico recente mostra que o Judiciário tende a preservar a arrecadação e a segurança jurídica dos contratos já firmados.
- Extinção total: risco de judicialização longa e perda de receita imediata
- Taxação alta (30%+): migração para offshores, queda de arrecadação
- Regulação mantida: previsibilidade, mas pressão por compliance mais duro
Agronegócio: renegociação e seguro climático no radar
Ronaldo Caiado (PSD) foi o único a detalhar proposta econômica setorial. Em Goiás, defendeu renegociação de dívidas rurais e seguro rural obrigatório para cobrir eventos extremos — citou nominalmente o El Niño projetado para 2025/26.
O passivo do agronegócio junto ao BNDES e bancos privados supera R$ 350 bilhões. Qualquer renegociação em massa afeta balanços de instituições financeiras e fundos de crédito privado (FIDCs, Fiagros). O seguro rural, hoje subsidiado em 40% pelo Tesouro, passaria a ser “garantia de Estado” — custo fiscal direto ainda não dimensionado.
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.
Segurança pública como ativo eleitoral e econômico
Flávio Bolsonaro (PL) usou a formatura de praças da PM no Rio para anunciar “guerra ao crime organizado” e vincular policiais à “devolução das ruas ao povo”. A retórica não é nova, mas o momento é: o custo da violência para o PIB brasileiro é estimado em 4,2% ao ano (Ipea, 2023), entre perdas de produtividade, segurança privada e fuga de investimentos.
Candidatos que apresentarem plano operacional — não apenas retórico — para integrar polícias, modernizar inteligência e reduzir letalidade policial tendem a atrair apoio do setor produtivo e de fundos imobiliários expostos a centros urbanos degradados.
O que não apareceu nas agendas — e por que importa
Nenhum dos pré-candidatos com agenda pública abordou reforma tributária (em implementação), arcabouço fiscal ou política monetária. Leonardo Avalanche, Samara Martins, Wilson Grassi e Clariana Barão não divulgaram compromissos.
O silêncio sobre a transição do IVA dual e a trajetória da dívida/PIB (hoje em 74,4%) sugere que o debate econômico estrutural ficará para o segundo semestre de 2026 — ou para depois da eleição.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o cenário para quem aloca capital no Brasil nos próximos 18 meses: (1) se a regulação das bets será alterada por medida provisória ainda em 2026; (2) se o seguro rural vira política de Estado com dotação orçamentária própria; (3) se algum candidato apresenta plano de segurança com métricas e orçamento.
Até lá, a volatilidade cambial e de juros longos deve seguir sensível a pesquisas qualitativas — não apenas intenção de voto, mas rejeição e segundo turno projetado. O empresário que monitorar apenas o “cavalo vencedor” perde a chance de se posicionar nos cenários de cauda.
