Economia

Lula explode com Vorcaro, propõe mandato no STF e avisa: “Fiscal é obrigação”

Lula discursa em evento da Esfera Brasil no Hotel Tivoli Mofarrej em São Paulo para empresários e CEOs
Lula critica Vorcaro e propõe mandato para ministros do STF em encontro com 700 empresários em São Paulo.

Diante de 700 empresários em São Paulo, Lula disse que estabilidade fiscal “não é mérito, é obrigação” — mas as falas que ecoaram no salão foram outras: ataque direto a Daniel Vorcaro, proposta de mandato para ministros do STF e cobrança pelo grau de investimento perdido.

O evento, promovido pela Esfera Brasil no Hotel Tivoli Mofarrej, reuniu CEOs da Vale, Itaú, J&F, Cosan, EDP e Brookfield. Muitos saíram antes do fim. Os que ficaram ouviram um discurso que misturou prestação de contas, campanha eleitoral e avisos de mudança estrutural.

O recado fiscal: números e uma linha vermelha

Lula herdou déficit de 2,8% do PIB e promete superávit de 0,1% em 2024. A plateia esperava firmeza no compromisso. Recebeu a promessa — e uma recusa explícita: não haverá ajuste via cortes na Previdência nem em programas sociais.

“Tornar o pobre mais pobre é o que se fez historicamente e não deu certo”, afirmou. Responsabilidade social e fiscal, segundo ele, precisam caminhar juntas. O mercado ouviu. A dúvida permanece: como fechar a conta sem tocar nas duas maiores despesas obrigatórias?

A bomba no Judiciário: mandato no lugar de vitaliciedade

Foi o momento de maior ruído. Lula defendeu reforma no Judiciário e colocou na mesa a substituição do cargo vitalício no STF por mandatos definidos. Também questionou o modelo atual de escolha dos ministros.

“A sociedade vai ter que se manifestar, porque o que está acontecendo não é bom para o país”, disse. Não detalhou o desenho. Deixou a porta aberta para o Congresso — e para a pressão pública — definirem o formato.

Vorcaro: “malandro”, corrupção e orgia

O dono do Banco Master virou alvo nominal. “Esse Vorcaro devia ser um malandro mesmo, que esse cara conseguiu corromper todo mundo. O que ele não corrompeu com dinheiro, ele corrompeu com orgia”, disparou Lula.

A fala foi recebida em silêncio. Vorcaro é investigado em operações que apuram fraudes em fundos de pensão e suspeitas de compra de decisões judiciais. O presidente não citou inquéritos. Não precisou.

Agências reguladoras: “cooptadas” e o caso da ANP

Lula mirou a ANP. Disse ter convocado dirigentes para explicar falhas na fiscalização. A resposta que ouviu: muitos servidores em trabalho remoto. “Então não tem como fiscalizar”, ironizou.

O recado foi amplo: “As agências vão ter que voltar a ser agência reguladora, e quem define a política pública é o Estado brasileiro.” A sinalização é de que virão mudanças na governança das autarquias — e no peso do setor privado nas indicações políticas.

Grau de investimento: a cobrança que veio da plateia

Marcos Almeida, CEO da Brookfield no Brasil, pediu o óbvio: “Que o governo lute para reconquistar o grau de investimento.” Lula lembrou que o país teve a classificação em seus governos anteriores e chegou a procurar agências nos EUA para questionar a demora.

O risco-país caiu. O selo não voltou. A conta, para o mercado, segue aberta: ajuste fiscal crível + arcabouço crível = rating de volta.

Soberania, minerais críticos e a “nossa” inteligência artificial

Lula conectou três pontos: terras raras, industrialização e autonomia tecnológica. Defendeu que minerais estratégicos sejam processados no Brasil, não apenas exportados. “Extraída aqui, transformada aqui, industrializada aqui.”

Sobre data centers, celebrou o Redata (incentivo tributário recém-aprovado) mas alertou: “Gasta-se muita energia. Não pode permitir que a energia da sociedade seja usada para data center.” A solução: expandir geração.

Na IA, a frase que resume a postura: “Não quero ficar brigando entre a China e os EUA para saber qual é a inteligência artificial. Quero a nossa.”

Empresários “desaforados” e a ironia do BC independente

Lula elogiou Joesley Batista (J&F) como exemplo de “empresário desaforado” — quem arrisca em foguetes e mísseis, não só em carros. Citou a queda de 3,8 milhões para 1,6 milhão de veículos vendidos como sintoma da desindustrialização.

Sobre o Banco Central autônomo, ironizou: “Vocês brigaram, tinha que ser bom, mas agora virou um zoo. Vocês que pediram, não fui eu.” A plateia, majoritariamente favorável à autonomia, ouviu sem reagir.

O que observar daqui para frente

  • Reforma do Judiciário: se o tema avança no Congresso ou fica no discurso.
  • Arcabouço fiscal 2025: como o governo entrega superávit sem mexer em Previdência e sociais.
  • Agências reguladoras: mudanças na lei das agências ou decretos que alterem governança e poder de indicação.
  • Grau de investimento: próximas avaliações de S&P, Moody’s e Fitch — e o que elas exigem concretamente.
  • Política industrial: editais e financiamentos para processamento de minerais críticos e data centers nacionais.

O discurso foi longo. A plateia, qualificada. O que fica não é a retórica eleitoral — são os vetores de poder que Lula sinalizou querer mover: Judiciário, regulação, soberania tecnológica e a régua do ajuste fiscal. Cada um deles terá resistência. Acompanhar a tramitação, não a retórica, é o que separa ruído de sinal.