Quatro candidatos ao Senado pelo Amapá subiram ao palco da Rede Amazônica nesta sexta-feira (25) e expuseram rachaduras profundas sobre dois pilares da economia local: o futuro do petróleo na Foz do Amazonas e o destino das estatais de água e energia. O debate, transmitido ao vivo de Macapá, durou três blocos e deixou mais perguntas do que respostas para quem acompanha de perto o orçamento do estado.
Lucas Barreto (PSD) e Rayssa Furlan (Podemos) não compareceram nem justificaram a ausência — fato que virou munição nas mãos dos presentes. Randolfe Rodrigues (PT) usou seu tempo para questionar Barreto diretamente, citando posição contrária ao fim da escala 6×1. A cadeira vazia virou símbolo de uma campanha que ainda não desenhou suas frentes de batalha.
Petróleo: promessa de 12 anos ou aposta imediata?
O tema mais quente surgiu quando Randolfe perguntou como transformar a descoberta de petróleo na foz do Rio Amazonas em desenvolvimento social real. A resposta revelou dois cronogramas irreconciliáveis.
João Alberto Capiberibe (PSB) foi direto: a viabilidade econômica da exploração ainda depende de estudos que podem levar até 12 anos. Ele defendeu investimentos imediatos em bioeconomia e uso sustentável da floresta para gerar empregos agora. Randolfe contrapropôs a criação da Universidade Federal da Fronteira em Oiapoque para qualificar mão de obra local, além de cobrar portos e refinarias no estado.
O choque de horizontes é o ponto: um lado aposta na estruturação de longo prazo; o outro quer infraestrutura e capacitação antes que o óleo comece a fluir. Nenhum dos dois apresentou fonte de financiamento para as propostas.
Caesa e CEA: tarifa abusiva ou fiscalização falha?
No primeiro bloco, Capiberibe mirou em Alliny Serrão (União Brasil), presidente da Assembleia Legislativa à época das concessões da Caesa (saneamento) e da CEA (energia). A acusação: privatizações geraram tarifas que pesam sobre a população vulnerável. Serviços essenciais, argumentou, deveriam permanecer estatais.
Alliny rebateu defendendo sua atuação parlamentar e alegando que a privatização exige fiscalização rigorosa para assegurar qualidade. Sua bandeira no Senado seria a redução das tarifas energéticas aproveitando o potencial do Amapá como estado produtor de energia.
O embate expõe um vazio regulatório: quem garante que a fiscalização prometida sairá do papel? O debate não trouxe números atuais de reajuste nem comparativos com estados vizinhos — lacuna que o eleitor precisará preencher por conta própria.
O que mais entrou na pauta (e o que ficou de fora)
- Funcionalismo público: discutido no bloco de temas determinados, sem propostas concretas de reforma administrativa.
- Habitação: mencionada, mas sem metas de déficit habitacional ou fontes de financiamento.
- Empreendedorismo e agro: sorteados como temas, porém sem detalhamento de linhas de crédito ou zoneamento agrícola.
Ausentes, Lucas Barreto e Rayssa Furlan não tiveram suas posições testadas. A legislação eleitoral (art. 46 da Lei 9.504/97) só exige convite a partidos com bancada mínima de cinco parlamentares no Congresso — critério que ambos preenchiam. A estratégia do silêncio pode custar caro na reta final.
O que observar daqui para frente
O calendário eleitoral de 2026 ainda está no início, mas três marcos merecem atenção: a definição de regras para o fundo eleitoral, o prazo de desincompatibilização de cargos públicos (geralmente abril do ano da eleição) e a divulgação dos planos de governo completos — onde as propostas genéricas do debate precisarão virar números, prazos e responsáveis. Quem acompanha o mercado local deve cruzar as falas de hoje com o histórico de votação de cada candidato em matérias de concessão e meio ambiente. A coerência, mais do que o discurso, dirá quem tem condições de entregar.
