O IPCA-15 de setembro explodiu as previsões ao subir 0,7%, maior alta para o mês desde 2021, enquanto o dólar mal se move fica em R$ 5,198. O dado coloca o Banco Central em xeque justamente quando o exterior sinaliza juros altos por mais tempo.
O índice ficou bem acima do teto das estimativas (0,66%) e da mediana (0,55%). A pergunta que fica: até onde vai a pressão sobre a Selic nas próximas reuniões?
O fim do “alívio” na conta de luz
A aceleração já era esperada, mas a magnitude assustou. Em agosto, o índice havia caído 0,40% puxado pelo bônus de Itaipu, que barateou a energia elétrica temporariamente.
Com o fim desse desconto, a conta de luz voltou a pesar no bolso e empurrou a prévia da inflação para cima. Para Júlio Barros, economista do Daycoval, fatores que ajudavam agora jogam contra.
Núcleos duros e a decisão de novembro
O detalhe que preocupa a autoridade monetária está nos núcleos de inflação. Eles vieram dentro do esperado, mas seguem elevados e aceleraram na comparação anual.
O cenário base do mercado permanece a manutenção da taxa básica de juros no próximo encontro do Copom, marcado para 3 e 4 de novembro. Qualquer surpresa adicional pode mudar essa aposta.
Lá fora: Treasuries nos picos de 2007
Enquanto o dólar opera perto da estabilidade aqui (alta de 0,08% às 10h03), o cenário externo ferve. O rendimento da Treasury de 10 anos ronda 5,177%, maior nível desde 2007.
Dirigentes do Fed reforçam o medo de inflação persistente e choques de oferta. O petróleo, mesmo recuando 1,57% hoje, segue próximo de US$ 105 por barril.
- Dólar (10h03): R$ 5,198 (+0,08%)
- Treasury 10 anos: 5,177% (máxima desde 2007)
- Petróleo WTI: ~US$ 105 (-1,57%)
- Índice DXY: -0,29%
Fechamento de ontem e o recado da Bolsa
Na véspera, a moeda americana fechou em alta de 0,48%, a R$ 5,193, acompanhando o fortalecimento global. O Ibovespa sentiu o peso e recuou 0,99%, aos 183.965 pontos.
O movimento mostra a sensibilidade do ativo brasileiro ao humor externo, mesmo com o real resistindo melhor que pares emergentes.
A variável política entra na equação
Para completar o cenário de incerteza, a pesquisa Datafolha divulgada ontem mexeu com as projeções para 2026. Lula (PT) aparece com 40% das intenções no primeiro turno, contra 36% de Flávio Bolsonaro (PL).
No segundo turno, o empate técnico persiste: 47% a 45%. A diferença, que havia caído para 3 pontos, voltou a 4 — ainda dentro da margem de erro de 2 pontos.
O que observar daqui para frente
A combinação de inflação doméstica resistente, juros americanos nas alturas e corrida presidencial acirrada cria uma “tempestade perfeita” para a volatilidade. O investidor deve monitorar três frentes nas próximas semanas:
- Comunicados do Fed e dados de emprego nos EUA (payroll);
- Próximos indicadores de inflação cheia (IPCA) e atividade no Brasil;
- Evolução das pesquisas eleitorais e ruídos fiscais no Congresso.
O fechamento da curva de juros futura dirá se o mercado precifica mesmo a Selic parada ou se começa a embutir novo aperto. Fique atento aos leilões de NTN-B do Tesouro — eles costumam antecipar o estresse.
