Economia

Tesouro Direto cai com alívio externo, mas IPCA-15 assusta: o que muda para seu bolso

Gráfico mostra queda nas taxas do Tesouro Direto com IPCA-15 acima do esperado
Tesouro Direto cai mesmo com IPCA-15 de 0,70% superando projeções de 0,53%

As taxas do Tesouro Direto abriram em queda nesta sexta-feira (25), ignorando uma prévia da inflação bem acima do consenso. O movimento contraditório expõe uma disputa entre sinais externos e pressão doméstica que pode ditar os rumos da renda fixa nas próximas semanas.

O IPCA-15 de setembro subiu 0,70%, contra 0,53% projetado pelo mercado, mas o alívio geopolítico no Oriente Médio falou mais alto. Entenda por que a curva de juros fechou mesmo com a surpresa altista nos preços.

O que moveu as taxas hoje

Negociadores dos Estados Unidos e do Irã sinalizam uma saída gradual para o conflito, incluindo a reabertura do Estreito de Ormuz. A notícia conteve o petróleo e aliviou os Treasuries americanos, que operavam perto das máximas de duas décadas. O efeito cruzou fronteiras e puxou os rendimentos brasileiros para baixo.

No segmento prefixado, o Tesouro Prefixado 2032 recuou de 14,15% para 14,13% ao ano. O Prefixado com Juros Semestrais 2037 caiu de 14,13% para 14,11%. Já o Prefixado 2029 manteve-se estável em 13,91%.

Entre os indexados à inflação, o IPCA+ 2032 foi de 7,67% para 7,65%, e o IPCA+ com Juros Semestrais 2037 recuou de 7,51% para 7,50%. Nos vértices mais longos, houve alta residual: IPCA+ 2050 subiu de 7,13% para 7,14% e o IPCA+ 2060 avançou de 7,19% para 7,20% — movimentos pontuais que não revertem a tendência majoritária de queda.

Inflação: o diabo mora nos detalhes

A prévia oficial acumula 3,82% no ano e 4,47% em 12 meses, ante 4,24% na leitura anterior. O salto mensal foi puxado por itens voláteis: passagens aéreas e gasolina lideraram a alta, além da recomposição de preços de alimentação no domicílio após surpresas baixistas recentes.

Especialistas ouvidos pelo mercado concordam em dois pontos:

  • Núcleos industriais seguem em desaceleração, sinalizando que a desinflação estrutural prossegue.
  • Serviços subjacentes permanecem resistentes, indicando que o processo ainda está incompleto.

Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, destaca que a abertura do índice “veio pior”, embora a dinâmica de bens industriais continue favorável. Leonardo Costa, economista do ASA, reforça que a persistência nos serviços pode levar a casa a revisar sua projeção de IPCA cheio para setembro, hoje em 0,63%, para algo próximo de 0,70%.

Juros: a aposta nos cortes segue de pé

Apesar do susto inflacionário, as duas casas mantêm o cenário base de continuidade do ciclo de afrouxamento monetário. A Monte Bravo projeta Selic a 13,50% na próxima reunião do Copom, com passos adicionais condicionados ao desfecho eleitoral e à consolidação fiscal do próximo governo. O ASA também prevê dois cortes de 25 pontos-base, em novembro e dezembro.

A leitura compartilhada é de que o choque atual tem caráter temporário e não altera a tendência de convergência da inflação para a meta no horizonte relevante de política monetária.

Tabela: taxas do Tesouro Direto às 9h23 de 25/10

  • Tesouro Prefixado 2029: 13,91% a.a. | Vencimento: 01/01/2029
  • Tesouro Prefixado 2032: 14,13% a.a. | Vencimento: 01/01/2032
  • Tesouro Prefixado c/ Juros Semestrais 2037: 14,11% a.a. | Vencimento: 01/01/2037
  • Tesouro IPCA+ 2032: IPCA + 7,65% | Vencimento: 15/08/2032
  • Tesouro IPCA+ c/ Juros Semestrais 2037: IPCA + 7,50% | Vencimento: 15/05/2037
  • Tesouro IPCA+ 2040: IPCA + 7,27% | Vencimento: 15/08/2040
  • Tesouro IPCA+ c/ Juros Semestrais 2045: IPCA + 7,31% | Vencimento: 15/05/2045
  • Tesouro IPCA+ 2050: IPCA + 7,14% | Vencimento: 15/08/2050
  • Tesouro IPCA+ c/ Juros Semestrais 2060: IPCA + 7,20% | Vencimento: 15/08/2060

O que observar daqui para frente

A disputa entre alívio externo e pressão interna deve ditar o ritmo das próximas sessões. Se a trégua no Oriente Médio se confirmar, o petróleo contido abre espaço para a curva brasileira fechar mais, beneficiando posições em prefixados e indexados de médio prazo. Por outro lado, a resistência dos serviços no IPCA mantém o Banco Central atento: qualquer sinal de contaminação de expectativas pode alongar o ciclo de cortes ou reduzir sua magnitude.

Para o investidor, a lição prática é clara: a volatilidade de curto prazo cria janelas de entrada em taxas reais ainda atrativas, mas exige calibragem de prazo e indexador conforme o perfil de risco. Acompanhar as atas do Copom e a evolução do fiscal pós-eleição será decisivo para ajustar a alocação nos próximos meses.