Economia

De piada a todo-poderoso: Ellison assume Warner e Paramount por US$ 111 bi

David Ellison, CEO da Skydance, em retrato executivo com logotipos da Warner Bros. Discovery e Paramount Global ao fundo, simbolizando fusão de US$ 111 bilhões
David Ellison assume comando de império de mídia unindo Warner e Paramount por US$ 111 bilhões.

David Ellison, 43 anos, acaba de receber a chave de um império de US$ 111 bilhões que une Paramount e Warner Bros. Discovery. O acordo antitruste com 12 estados americanos removeu o último obstáculo para a criação do maior conglomerado de mídia controlado por uma única família desde Walt Disney. Mas a festa esconde uma conta bilionária e um mercado em frangalhos.

O cheque de US$ 111 bilhões que calou a justiça

A batalha jurídica durou meses. Na segunda-feira (21), procuradores-gerais de 12 estados — incluindo Califórnia e Nova York — aceitaram encerrar os processos que alegavam risco à concorrência no cinema e na TV a cabo. Em troca, Ellison assinou compromissos concretos que vão ditar o ritmo do novo gigante nos próximos cinco anos.

  • Lançamentos: mínimo de 30 filmes por ano nos cinemas;
  • Produção nacional: US$ 1,5 bilhão adicionais gastos em solo americano;
  • Jornalismo independente: conselho autônomo para blindar a linha editorial da CNN e da CBS News.

O fechamento da operação é esperado para daqui a duas semanas. A família Ellison deterá 77,5% das ações com direito a voto, garantindo controle absoluto sem depender de assembleias de acionistas minoritários.

Por que Wall Street e Hollywood tremem com esse poder

Não é apenas o tamanho do ativo. É a estrutura de poder. Ellison acumula as funções de proprietário controlador, CEO e produtor ativo — algo que nem Bob Iger, na Disney, concentrou por tanto tempo. Joseph M. Singer, investidor veterano e ex-executivo de estúdio, definiu o cenário com precisão cirúrgica: Ellison vira uma mistura de “Super-Homem, Júlio César e Midas” à mesa de negociações.

O portfólio resultante assusta pela amplitude: Batman, Harry Potter, Mulher-Maravilha, Capitão Kirk, Ethan Hunt, Maverick e Bob Esponja sob um mesmo teto. Some-se a isso a CNN, HBO, MTV, TNT, Comedy Central, Paramount+ e Max. O poder de definir o que é produzido, como é distribuído e qual narrativa jornalística prevalece nunca esteve tão centralizado.

A ascensão do “garoto” que ninguém levava a sério

Em 2006, aos 23 anos, Ellison desembarcou em Los Angeles com o talão de cheques do pai, Larry Ellison (cofundador da Oracle). A indústria riu dele. A GQ o rotulou como “O Garoto que Paga a Conta do Filme” em 2015. Treze meses atrás, ele fechou a compra da Paramount por US$ 8 bilhões. Quatro meses depois, atropelou a Netflix e arrancou a Warner Bros. Discovery de um acordo já encaminhado.

Doze procuradores-gerais democratas processaram. O Sindicato dos Roteiristas (WGA) entrou na Justiça. Milhares de profissionais assinaram o manifesto “Block the Merger”. Agentes e produtores, em off, o comparam a Michael Corleone: o outsider que consolida o poder com eficiência implacável. Nada o deteve.

O abismo da dívida e o inverno da TV a cabo

O otimismo da assinatura contrasta com a planilha do dia seguinte. O novo conglomerado nasce carregando US$ 79 bilhões (cerca de R$ 403 bilhões) em dívida líquida. A promessa de sinergia é agressiva: US$ 6 bilhões em cortes anuais. Mas a integração de duas máquinas pesadas, com culturas distintas, enquanto a TV a cabo sangra assinantes, é cirurgia de alto risco.

Além disso, a pressão política sobre a CBS News e a CNN promete ser constante. Jantares com a Casa Branca de Trump geraram desconfiança em um town majoritariamente democrata. A independência editorial prometida no papel será testada na primeira grande cobertura sensível.

Bilheteria em frangalhos: o teste de fogo do novo império

O problema mais básico de Hollywood continua sem solução: fazer filmes que as pessoas queiram ver. Em 2026, a Warner Bros. amarga a sexta posição entre os sete maiores estúdios em market share doméstico (cerca de 5%). A Paramount está em sétimo, com a mesma fatia. Juntas, não chegam a 10%. A Universal lidera com 24%; a Disney tem 21%.

Ter o Batman e o Ethan Hunt no catálogo não garante mais bilheteria. A concorrência real hoje atende pelo nome de Netflix e YouTube — plataformas que não precisam convencer ninguém a sair de casa.

O que observar nas próximas semanas

O fechamento formal da aquisição é o primeiro marco. O segundo será a nomeação do conselho editorial independente da CNN/CBS — nomeações que sinalizarão se a blindagem jornalística é real ou cosmética. O terceiro, e mais decisivo, é a execução do plano de 30 filmes/ano: Ellison precisará greenlightar projetos em velocidade recorde para cumprir a meta já em 2025.

Investidores e concorrentes devem monitorar a alavancagem. Se a geração de caixa do streaming e do legado de TV a cabo não cobrir o serviço da dívida de US$ 79 bi, a “eficiência Corleone” vira risco sistêmico. A troca de guarda em Hollywood aconteceu. Agora, o novo dono precisa provar que o império não é apenas grande — mas sustentável.