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Recorde de CNPJ esconde abismo: 20 milhões na informalidade

Gráfico mostra divisão entre 10,7 milhões de CNPJs ativos e 20 milhões de trabalhadores informais no Brasil 2025
Brasil atinge recorde de CNPJs, mas 65% dos empreendedores seguem na informalidade segundo IBGE

O Brasil atingiu a marca histórica de 35% dos empreendedores com CNPJ ativo em 2025, totalizando 10,7 milhões de registros. O número parece uma vitória, mas esconde um contraponto brutal: 20 milhões de trabalhadores por conta própria e empregadores — 65% do total — seguem sem qualquer formalização.

Os dados são de uma edição especial da Pnad Contínua, do IBGE, e revelam um país dividido em dois ritmos distintos de formalização. Entender essa fratura é essencial para quem decide onde alocar capital, como estruturar cadeias de fornecimento ou onde estão os próximos mercados consumidores.

A divisão que explica os números

O universo de 30,6 milhões de empreendedores não é homogêneo. Entre os empregadores — quem tem ao menos um funcionário —, a formalização é regra: 81,1% possuem CNPJ, patamar estável acima de 80% desde 2019.

Já no grupo dos trabalhadores por conta própria, a realidade inverte. Apenas 27,1% têm registro, o maior índice da série histórica iniciada em 2012 (quando era 15%), mas ainda classificado como “baixo” pelo analista do IBGE, William Kratochwill.

Essa assimetria define o perfil de risco de crédito e a capacidade de escala de cada segmento. Quem não emite nota fiscal não acessa linhas empresariais de financiamento nem contrata formalmente.

Escolaridade dita o ritmo da formalização

Pela primeira vez, mais da metade (50,8%) dos conta própria com nível superior possuem CNPJ. A correlação é direta e crescente:

  • Nível superior: 50,8% formalizados;
  • Médio completo / Superior incompleto: 29,7%;
  • Fundamental completo / Médio incompleto: 18,6%;
  • Sem instrução / Fundamental incompleto: 11%.

Para Kratochwill, o avanço nos estratos mais educados reflete a eficácia de programas de desburocratização, sobretudo o MEI. O modelo simplificado — teto de R$ 81 mil de faturamento e um funcionário — removeu barreiras de custo e complexidade para quem já tem repertório para navegar na burocracia residual.

O mapa setorial: onde o CNPJ é regra e onde é exceção

A atividade econômica continua sendo um divisor de águas mais forte que a legislação. Dois setores puxam a média nacional para cima, enquanto a base primária segue praticamente à margem:

  • Comércio e reparação de veículos: 36,7% de formalização;
  • Serviços: 33,5%;
  • Indústria geral: 22,8%;
  • Construção: 14,8%;
  • Agropecuária, pesca e aquicultura: 6,5%.

A baixa adesão no campo e na construção sinaliza gargalos estruturais: sazonalidade, dispersão geográfica e fiscalização frágil. Para investidores, são setores com alta informalidade tributária e trabalhista, o que eleva o risco regulatório e reputacional.

Sindicatos: estabilidade frágil e envelhecimento

Paralelamente, a sindicalização estancou a queda livre iniciada em 2017 (reforma trabalhista e fim do imposto obrigatório). Em 2025, 8,8% dos 103 milhões de ocupados tinham vínculo sindical — 9,1 milhões de pessoas, variação estatisticamente nula frente a 2024.

O alerta do IBGE é demográfico: jovens não entram, trabalhadores acima de 40 anos saem em “verdadeiro êxodo”. A base de financiamento das entidades encolhe por ambas as pontas, sugerindo que a representação coletiva precisará se reinventar ou tornar-se residual nas negociações setoriais.

O que observar daqui para frente

O recorde de 35% não é teto. A curva histórica mostra ganhos anuais de 0,5 a 1,5 ponto percentual desde 2022. Três variáveis definirão a velocidade:

  • Expansão do MEI para novas ocupações e elevação do teto de faturamento;
  • Exigência de nota fiscal em marketplaces e plataformas de pagamento (Pix/boleto) como gatilho compulsório;
  • Políticas de crédito direcionado que exijam CNPJ como porta de entrada.

Para o tomador de decisão, o recado é claro: o mercado endereçável formalmente cresce, mas a massa informal de 20 milhões segue sendo mão de obra barata, consumo invisível e passivo previdenciário futuro. Quem souber transformar informalidade em clientela formalizada — via tecnologia, crédito ou simplificação — captura o valor que as estatísticas ainda não mostram.