O cofundador da Palantir e um dos maiores doadores de Donald Trump desembarcou em São Paulo com 15 pessoas e se hospedou no hotel Rosewood — tudo às vésperas de uma eleição decisiva nos EUA. O registro interno do hotel, obtido com exclusividade, revela nomes, empresas e uma conexão direta com a startup brasileira que virou unicórnio.
Mas o que um investidor ligado à inteligência militar americana fazia no Brasil com uma equipe tão grande? A resposta passa por tecnologia jurídica, política internacional e um movimento silencioso de expansão na América Latina.
O registro que ninguém esperava ver
Um documento interno do Rosewood, datado de maio, lista os hóspedes sob a identificação “Thiel Capital & Presidio One”. A primeira gere o patrimônio pessoal do bilionário; a segunda compartilha endereço com a Thiel Capital em Los Angeles. Entre os 15 nomes estão:
- Hanna Leeke — assistente executiva pessoal de Thiel
- Andrew Dias — diretor de tecnologia da Thiel Capital
- Outros 13 integrantes não identificados publicamente
A estadia ocorreu entre 30 de abril e início de maio. O Valor Econômico já havia noticiado a visita, mas o registro traz detalhes que não vieram a público: o tamanho da comitiva e a estrutura corporativa por trás dela.
O elo com o unicórnio brasileiro
Thiel não veio a turismo. O objetivo central foi encontrar a equipe da Enter, startup que desenvolve inteligência artificial para departamentos jurídicos e acaba de ultrapassar US$ 1 bilhão em valuation. A rodada de investimento estava em fase final.
A Enter conta com nomes de peso em seu conselho consultivo: o ex-presidente do STF Luís Roberto Barroso e o apresentador Luciano Huck. O fundo Founders Fund, veículo de investimento de Thiel, já era acionista.
Durante a passagem, o bilionário participou de um encontro promovido pela Enter com executivos de grandes companhias. A agenda completa e a lista de participantes não foram divulgadas.
Por que isso importa para quem faz negócios no Brasil
Peter Thiel não é apenas um investidor de tecnologia. Ele financiou a carreira política de J.D. Vance, atual vice-presidente dos EUA, e foi um dos primeiros apoiadores de peso de Donald Trump em 2016. Sua empresa, a Palantir, fornece sistemas de análise de dados para governos, agências de inteligência e forças armadas americanas.
A presença dele no Brasil sinaliza dois movimentos simultâneos:
- Aprofundamento de apostas em IA aplicada a setores regulados (jurídico, compliance, governo)
- Expansão geográfica da rede de influência de Thiel na América Latina
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.
O tabuleiro latino-americano
Meses depois da passagem por São Paulo, Thiel reuniu-se com o presidente argentino Javier Milei e integrantes de seu governo. Comprou uma residência em Buenos Aires. Em agosto, parlamentares de oposição na Argentina promoveram audiência para discutir sua atuação no país.
O padrão se repete: entrada via investimento em tecnologia, seguida de aproximação com lideranças políticas de viés liberal-conservador. No Brasil, a Enter — com seu conselho estrelado e foco em direito corporativo — funciona como porta de entrada natural.
O que observar daqui para frente
Três pontos merecem atenção nos próximos trimestres: se a Enter anunciará novo aporte do Founders Fund ou veículos associados; se outras startups brasileiras de legaltech ou govtech receberão atenção do ecossistema de Thiel; e se a agenda política do bilionário na região ganhará contornos mais formais — como ocorreu na Argentina.
Para investidores e executivos brasileiros, a lição é clara: capital americano com DNA de inteligência de Estado está mapeando o mercado nacional. Quem entende as regras desse jogo sai na frente.
