Em seu discurso na 81ª Assembleia Geral da ONU, Donald Trump descartou qualquer limite ao desenvolvimento de inteligência artificial nos Estados Unidos e atacou propostas de governança global. A decisão sinaliza que a corrida tecnológica continuará sem freios regulatórios — e isso afeta diretamente quem investe, empreende ou depende de infraestrutura digital.
O presidente foi taxativo: “Os Estados Unidos rejeitam totalmente qualquer tentativa de criar um esquema globalista para controlar a inteligência artificial”. A fala aconteceu nesta quarta-feira (22), em Nova York, e marca uma ruptura clara com esforços multilaterais em andamento.
O racha entre dois modelos de poder
Enquanto Washington aposta em um clube de “parceiros confiáveis” para ditar as regras, Pequim defende código aberto e participação universal. São duas visões incompatíveis que dividem o mercado em dois blocos tecnológicos distintos.
Para o especialista Ettore Arpini, fundador da Plures, a posição americana isenta as grandes corporações de qualquer amarra internacional. “É totalmente contrário ao movimento de outros países de formar uma aliança de potências médias para trazer de novo um multilateralismo”, afirma.
Na prática, isso significa que empresas brasileiras que usam modelos americanos ficam expostas a mudanças unilaterais de acesso, preço e condições de uso — sem instância de recurso.
Por que a pressa assusta até os insiders
Trump descartou desaceleração: “Não vou sufocar o crescimento de algo que será maior do que a Revolução Industrial”. Mas na semana anterior, líderes da própria indústria pediram freio nos modelos mais avançados, alertando que a evolução supera os mecanismos de segurança.
O Banco de Compensações Internacionais (BIS) foi além: apontou risco de bolha financeira. O volume de capital alocado em IA cresce sem proporcionalidade ao retorno comprovado, criando vulnerabilidade sistêmica.
- Investimento global em IA (2024): ultrapassou US$ 200 bilhões
- Participação dos EUA: cerca de 60% do total
- Alerta do BIS: alocação excessiva em projetos com retorno incerto
O jogo do nome: “superinteligência” como estratégia
Trump anunciou que a tecnologia passará a ser chamada oficialmente de “superinteligência”. O argumento: a palavra “artificial” faria a inteligência parecer falsa. Analistas veem outra intenção.
Para Arpini, o termo carrega viés político: “Em Washington tem uma narrativa de que os Estados Unidos liderem a IA. Chamar de superinteligência ajuda a construir essa narrativa”. O neurocientista Miguel Nicolelis vai além: classifica “inteligência” como metáfora de marketing para valorizar serviços das big techs.
Enquanto o debate semântico avança, a questão prática permanece: quem governa esses sistemas, qual seu nível de autonomia e quais consequências sociais eles produzem.
O que observar daqui para frente
A ausência de regulação federal nos EUA transfere o poder de fato para as empresas que controlam a infraestrutura — Microsoft, Google, Amazon, Meta, OpenAI. Para o executivo ou investidor brasileiro, três movimentos merecem monitoramento contínuo:
- Mudanças unilaterais em APIs e modelos de licenciamento das grandes plataformas
- Avanço de legislações regionais (UE, Brasil, Canadá) que podem criar barreiras de conformidade
- Sinais de estresse no mercado de capitais: rodadas de down-round, demissões em massa ou falências de startups de IA
O cenário não é de colapso iminente, mas de assimetria crescente. Quem depende de tecnologia alheia sem contrato de longo prazo ou plano B está exposto a decisões tomadas em Washington — ou no conselho de uma big tech — sem aviso prévio.
