Um levantamento inédito mostra que 85,7% das redes de restaurantes com cinco ou mais unidades na Grande São Paulo estão legalmente impedidas de operar na Keeta, plataforma que estreou no país no ano passado. O bloqueio não vem de falha técnica nem de escolha dos donos — é cláusula contratual.
Os dados, coletados diretamente junto a 147 redes, expõem uma barreira invisível que molda o que o consumidor vê (ou deixa de ver) nos aplicativos de entrega.
Pizza e saudável: as categorias mais aprisionadas
O cerco não é uniforme. Redes de pizza e de alimentação saudável lideram o índice de bloqueio, com 92% das unidades amarradas a contratos de exclusividade. Culinária brasileira aparece em seguida (88%), seguida por hamburguerias (86%).
Em números absolutos, isso significa que a grande maioria dos “restaurantes-âncora” — aqueles que garantem volume e variedade ao cardápio de um app — não pode sequer testar uma nova vitrine digital.
Três gigantes, um tabuleiro travado
O mercado brasileiro de delivery hoje gira em torno de três players: iFood (líder histórico), 99Food (braço da DiDi Global) e Keeta (controlada pela chinesa Meituan). As duas últimas chegaram em 2024 tentando ganhar espaço.
Desde o lançamento, a Keeta tenta romper contratos de exclusividade firmados com o iFood e levou ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) uma ação contra cláusulas de banimento da 99Food.
O que o Cade decidiu — e o que ficou em aberto
No início deste mês, o Tribunal do Cade rejeitou o recurso da Keeta contra a 99Food, mas determinou a continuidade da investigação sobre o setor. A autarquia entendeu que outras plataformas devem ser incluídas na análise.
- Keeta: mantém confiança na correção das “disfuncionalidades do mercado” e alerta para custo diário da demora.
- 99Food: recebeu a decisão com “tranquilidade” e defende a legitimidade de suas práticas.
- iFood: nega exclusividade generalizada e cita TCC (Termo de Compromisso de Cessação) assinado com o Cade como marco regulatório.
Por que isso importa para quem empreende
Restaurantes pequenos e médios costumam assinar contratos de exclusividade em troca de taxas reduzidas ou visibilidade destacada no app dominante. O problema: a cláusula veda a entrada em qualquer concorrente, mesmo que a parceria não esteja entregando resultados.
Para redes com cinco ou mais lojas, o cálculo é ainda mais sensível. Cada unidade bloqueada representa faturamento potencial perdido em uma plataforma que pode oferecer condições diferentes — ou simplesmente mais um canal de venda.
O que observar daqui para frente
A investigação do Cade segue sem prazo definido para conclusão. Enquanto isso, três variáveis merecem atenção de donos de redes, investidores e operadores de food service:
- Eventual revisão do TCC firmado entre iFood e Cade, que pode flexibilizar ou endurecer as regras atuais.
- Movimento de redes que tentam negociar cláusulas de “não exclusividade” na renovação de contratos.
- Entrada de novos players ou expansão geográfica da Keeta e 99Food, que altera o poder de barganha dos restaurantes.
Quem acompanha o setor sabe: no delivery, a variedade do cardápio é o principal ativo para reter consumidor. Enquanto a maioria das redes-âncora seguir impedida de circular livremente entre plataformas, o menu que o cliente vê continuará sendo, em grande parte, uma escolha contratual — não de mercado.
