A Polícia Federal prendeu na manhã desta quinta-feira (17) Diomar Tadeu Dantas de Farias, dono de 30% da Pixbet, na segunda fase da Operação Arena. A ação mira crimes de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e sonegação tributária — e revela como a casa de apostas movimentou recursos por paraísos fiscais para bancar a própria regularização no Brasil.
Além da prisão, agentes cumpriram cinco mandados de busca e apreensão e decretaram sequestro de bens em Campina Grande e João Pessoa. O primo de Diomar, Ernildo Júnior Farias Santos, controlador dos 70% restantes, já havia sido alvo na primeira fase. O processo corre em segredo de Justiça.
Como funcionava a engenharia financeira
A investigação aponta um circuito desenhado para dar aparência legal a valores oriundos de apostas. O dinheiro dos apostadores entrava no sistema financeiro brasileiro, era repassado a empresas de fachada no exterior e convertido em stablecoins — criptomoedas atreladas ao dólar.
Esses ativos digitais seguiam para contas do grupo empresarial. Paralelamente, dólares em espécie eram adquiridos em casas de câmbio e enviados a paraísos fiscais. O saldo no exterior, então, retornava à Pixbet de duas formas: como pagamento de dividendos das offshores ou como capital de giro da operação.
Os números por trás da regularização
Segundo dados da Receita Federal obtidos via Lei de Acesso à Informação, Ernildo Júnior figura como responsável por duas das licenças federais de apostas esportivas. Cada outorga custa R$ 30 milhões, mais um depósito de segurança de R$ 5 milhões. Ou seja: R$ 70 milhões em compromissos apenas para operar dentro da lei.
Investigadores suspeitam que o esquema de lavagem serviu justamente para gerar lastro financeiro a esses pagamentos. Empresas constituídas em cinco países — entre eles Curaçao, conhecido paraíso fiscal — recebiam valores altos sem atividade econômica real. A gestão, porém, ocorria toda no Brasil.
- 5 países com estruturas societárias da Pixbet
- R$ 30 milhões por licença federal de apostas
- R$ 5 milhões de depósito de segurança por outorga
- 17 mandados na primeira fase da Operação Arena
Clubes, advogados e a teia de pagamentos
Relatórios da PF indicam que, só em 2024, a offshore em Curaçao realizou pagamentos a advogados e a clubes patrocinados pela marca — Corinthians e Flamengo aparecem na lista. O escritório Nelson Wilians Advogados, que defende a bet, também foi alvo de busca na fase inicial por transações com a empresa no exterior. A banca nega irregularidades e afirma manter relação estritamente profissional.
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.
O elo com Daniel Vorcaro e a Bet.Bet
Antes da Pixbet, os primos foram sócios da Bet.Bet, plataforma vendida em março deste ano ao empresário Daniel Vorcaro — figura central em outras investigações sobre o mercado de apostas. A transação insere a operação atual numa rede mais ampla de ativos e personagens que a PF vem mapeando desde o ano passado.
Também são apuradas possíveis omissões de rendimentos e uso de estruturas empresariais para sonegar tributos. A Receita Federal atua em parceria com a Polícia Federal no rastreamento do fluxo completo.
O que observar daqui para frente
A defesa de Diomar Dantas não se manifestou até o fechamento desta reportagem. O desdobramento imediato depende da análise do material apreendido — computadores, documentos e dispositivos de armazenamento podem ampliar o escopo da investigação para além dos dois sócios.
Para o mercado, o caso acende um alerta: a regularização das bets, exigida pelo governo federal desde 2023, pode ter sido financiada por esquemas que a própria legislação buscava combater. Novas fases da Operação Arena não estão descartadas. Acompanhar os desdobramentos societários da Pixbet e eventuais impactos nos contratos de patrocínio esportivo será essencial para investidores e gestores de risco nos próximos meses.
