A Argentina mantém o peso artificialmente forte a custo de uma intervenção massiva do Banco Central em derivativos, e a conta está chegando para a indústria nacional. O PIB do segundo trimestre, divulgado nesta quinta-feira (17), deve confirmar a recessão técnica que analistas já projetam.
Enquanto a inflação mensal caiu de 25,5% para 1,7%, a moeda valorizada em termos reais torna importações mais baratas e tira a competitividade de quem produz no país. O resultado aparece nos setores que mais empregam.
O motor que parou de girar
No primeiro semestre, a entrada de dólares da safra de soja e uma onda de emissões de dívida corporativa no exterior encheram os cofres do BCRA. Esse fluxo permitiu recompor reservas sem pressionar o câmbio à vista.
O cenário virou no segundo semestre. Com o fim do pico da exportação agrícola e a seca de novos empréstimos externos, a autoridade monetária mudou a estratégia: passou a vender proteção cambial via títulos dollar-linked, duals e contratos futuros.
Os números da corretora Facimex expõem a dimensão da operação. O estoque desses instrumentos nas mãos do setor privado mais que dobrou em cinco meses:
- Março: US$ 5,2 bilhões (R$ 26,8 bi)
- Agosto: US$ 12 bilhões (R$ 61,8 bi)
Juros altos e crédito travado
Para sustentar essa arquitetura, o Banco Central deixou os juros subirem. O efeito colateral imediato é o estrangulamento do crédito, que vinha puxando a recuperação após anos de inflação alta.
Desde as legislativas de outubro de 2023, a inadimplência das famílias bate recordes sucessivos. Empresas industriais, varejistas e construtoras — setores intensivos em mão de obra — ficaram para trás enquanto energia, mineração e agronegócio avançam.
Os dados que doem no bolso
A atividade real já reflete o descompasso. Em agosto, na comparação anual:
- Construção encolheu 4,5%
- Indústria de transformação recuou 4,9%
Essa dinâmica forçou economistas a cortar a projeção de crescimento para 2025 de 3,5% para 2,1%. A inflação, por sua vez, emperrou perto de 2% mensais, resistindo à meta de 1% que o governo persegue.
O dilema eleitoral de 2025
Para Ivan Stambulsky, do Barclays, a taxa de câmbio real efetiva está “valorizada demais para a atual combinação de políticas”. Osvaldo Giordano, da Fundación Mediterránea, resume a encruzilhada: segurar a desinflação a todo custo ou aliviar setores urbanos que concentram a maioria dos votos e dos empregos.
A taxa spot travada nos 1.500 pesos por dólar — bem abaixo dos 1.811 previstos há um ano para o fim de 2026 — é o sintoma visível de uma aposta arriscada.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo nos próximos meses: a velocidade de rolagem dos vencimentos de títulos atrelados ao dólar, a capacidade do agro de gerar superávit comercial no primeiro trimestre e a tolerância política para um desemprego industrial em alta. Se o fluxo de dólares não voltar, a conta dos derivativos pode virar uma armadilha de liquidez para o próprio Banco Central.
