Economia

O segredo que ninguém conta: por que juros não caem na canetada e o que isso esconde do seu bolso

Gráfico da taxa Selic com seta descendente bloqueada por carimbo "Não na canetada" e silhueta de bolso vazando dinheiro
Juros altos: o diagnóstico de que não há atalhos para derrubar a Selic sem equilibrar as contas públicas

O desequilíbrio das contas públicas deixou de ser planilha de economista e virou conta no fim do mês. Marcelo Kayath, ex-diretor do banco de investimentos do Credit Suisse e nome cotado para a Fazenda em um eventual governo Flávio Bolsonaro, avisa: não existe atalho para derrubar a Selic.

A frase “não se reduz juros na canetada” resume um diagnóstico que atinge diretamente quem paga financiamento, quem busca crédito para expandir o negócio e quem espera uma vaga no mercado de trabalho. Mas qual seria, então, o caminho real?

O diagnóstico que coloca o dedo na ferida

Kayath traz números que poucas vezes aparecem no noticiário diário. Em 2027, cerca de 92% das despesas primárias já estarão travadas em gastos obrigatórios. Ao mesmo tempo, o país abre mão de aproximadamente R$ 620 bilhões em renúncias tributárias por ano.

A conta não fecha. E o efeito cascata chega na ponta: juros altos para a família, crédito travado para a pequena empresa, postos de saúde e escolas sem verba. “Quando uma família paga juros altos porque o país perdeu credibilidade, o problema fiscal virou problema da vida real”, resume o ex-banqueiro.

O que está por trás do convite a Flávio Bolsonaro

A aproximação começou em um jantar em Miami, entre empresários e investidores. Dali saíram rodadas de conversa sobre o que Kayath chama de “disposição de conversar de forma aberta e construtiva”. Ele passou duas décadas estruturando mais de 200 operações que trouxeram US$ 120 bilhões (cerca de R$ 615 bilhões) para o Brasil.

O convite para ajudar a desenhar a economia não veio do nada. Kayath já foi sondado para o Banco Central no governo Lula. Recusou. A razão, diz ele, é “avaliação econômica”: o problema fiscal ficou mais urgente e exige mudança de ênfase na política econômica.

A equação que ninguém quer resolver sozinho

O ex-diretor do Credit Suisse descarta duas saídas fáceis: apenas aumentar impostos ou cortar programas sociais à força. Para ele, o ajuste precisa atacar quatro frentes simultâneas:

  • Crescimento automático das despesas obrigatórias
  • Benefícios e renúncias que não se justificam mais
  • Desperdícios e ineficiência da máquina pública
  • Falta de integração entre cadastros sociais — porta aberta para fraudes e pagamentos indevidos

“Quem não cuida das contas públicas não pode cuidar das pessoas”, repete. A proposta não é tirar de quem recebe Bolsa Família ou BPC, mas garantir que o recurso chegue a quem de fato precisa — e criar “portas de saída”: escola, creche, saúde, qualificação, crédito e emprego.

O elefante na sala: insegurança jurídica e investimento

Questionado sobre as investigações que envolvem Flávio Bolsonaro, Kayath não foge. Admite que o ruído no STF “não ajuda a imagem do país no exterior”. Mas argumenta que o julgamento da candidatura virá pelas propostas — e que insegurança jurídica afeta, no fim, o trabalhador e o empreendedor, porque investimento cai e oportunidades de emprego encolhem.

A mensagem que ele levou a banqueiros e empresários em encontros recentes foi direta: o Brasil precisa recuperar a previsibilidade. Não para agradar o mercado financeiro, mas para que quem produz saiba quais serão as regras daqui a três, cinco ou dez anos.

O que o próximo presidente não terá: tempo para gradualismo

Kayath é taxativo: o espaço fiscal encolheu. As despesas obrigatórias ocupam quase todo o Orçamento. O próximo mandatário não terá o benefício do gradualismo. O ajuste precisará ser relevante, sustentado no tempo e estrutural — capaz de gerar superávit primário que estabilize e depois reduza a dívida sobre o PIB.

A melhor política para baixar a Selic, reforça, não é pressionar o Banco Central. É recuperar a credibilidade fiscal. Ponto final.

O que observar daqui para frente

Três sinais dirão se o discurso vira prática: (1) se houver condições políticas reais para aprovar reformas de despesa no Congresso; (2) se o governo conseguir integrar cadastros e cortar fraudes sem paralisar programas essenciais; (3) se a trajetória da dívida/PIB começar a curvar para baixo nos primeiros dois anos. Sem isso, a Selic continuará ditando o ritmo — e a conta seguirá chegando no seu bolso.