O Rosewood São Paulo acaba de conquistar a sexta posição no ranking The World’s 50 Best Hotels 2026, tornando-se o melhor da América do Sul. O anúncio ocorreu em Paris, mas a festa esconde um jogo de poder societário que envolve o fundador do empreendimento e um gigante asiático.
A cerimônia no Les Salles du Carrousel coroou o Rosewood Hong Kong no topo da lista. Para o mercado brasileiro, o recado é claro: a hotelaria de luxo nacional entrou no mapa global de forma definitiva, superando ícones centenários como o Claridge’s (13º) e o Plaza Athénée (41º).
O ativo que valeu a briga
O mestre de cerimônias definiu o hotel como um “oásis arquitetônico meticulosamente preservado”. A propriedade nasceu da restauração da antiga maternidade Matarazzo, um complexo histórico transformado em 160 suítes, seis restaurantes e um spa que abriga uma sala com 400 cristais de quartzo branco.
Por trás da “opulência” citada no palco, há um ativo valioso. O empreendedor Alex Allard, responsável por revitalizar a Maison Balmain, idealizou o projeto. Ele foi afastado do conselho de administração após um embate com o grupo Chow Tai Fook, acionista majoritário da rede.
Essa movimentação societária não afetou a operação — pelo contrário. A nota máxima dos 800 especialistas anônimos sugere que a gestão atual manteve o padrão de excelência exigido pelo topo do mercado.
O recuo dos concorrentes nacionais
Se São Paulo comemora, o Rio e Foz do Iguaçu ligam o alerta. Os outros dois brasileiros habituais na lista perderam fôlego nesta edição:
- Copacabana Palace: caiu da 11ª para a 29ª posição — queda de 18 lugares em um ano.
- Hotel das Cataratas: aparece em 77º na lista estendida (51-100), uma posição abaixo de 2025.
A disparidade expõe uma concentração de investimentos e inovação na capital paulista. Enquanto o Rosewood aposta em arte, gastronomia assinada e arquitetura de destino, os rivais tradicionais enfrentam o desafio de se reinventar sem perder a identidade histórica.
Como a lista é construída e por que importa
A metodologia não muda: 800 votantes anônimos — jornalistas, hoteleiros e viajantes frequentes — distribuídos em nove regiões globais. Não há inspeção física padronizada; a reputação entre pares dita o resultado.
Para investidores, o ranking funciona como termômetro de brand equity e capacidade de cobrar diárias médias (ADR) acima da média de mercado. Entrar no top 10 global coloca o ativo em outro patamar de valuation e atratividade para fundos imobiliários e operadores internacionais.
O top 10 de 2026 em resumo
- Rosewood (Hong Kong)
- Capella Bangkok (Tailândia)
- Four Seasons Bangkok (Tailândia)
- Atlantis The Royal (Dubai)
- Passalacqua (Itália)
- Rosewood São Paulo (Brasil)
- Mandarin Oriental Qianmen (China)
- The Upper House (Hong Kong)
- Chablé Yucatán (México)
- Mandarin Oriental Bangkok (Tailândia)
A dominância asiática (quatro no top 10) e a presença de Dubai e Itália sinalizam onde o capital de luxo está fluindo. O Brasil figura como exceção sul-americana isolada.
O que observar daqui para frente
A disputa societária entre Allard e Chow Tai Fook segue nos bastidores. Qualquer desfecho — compra de participação, recompra ou mudança de gestão — pode alterar a trajetória do ativo mais valioso da hotelaria brasileira atual.
Outro ponto de atenção: a capacidade do Copacabana Palace de reverter a queda livre. O ícone carioca precisa de capex (investimento em capital) pesado para recuperar posições, o que depende de apetite do acionista Belmond/LVMH.
Para quem monitora o setor, a lição é direta: produto diferenciado + narrativa forte + gestão blindada a ruídos internos = prêmio de mercado. O Rosewood São Paulo provou a equação em Paris. O próximo teste será sustentar a nota com ocupação e rentabilidade em reais.
