Economia

Crédito na UTI: Bancos Dobram Times e Usam IA para Caçar Devedores

Equipe bancária usando inteligência artificial para monitorar devedores e recuperações judiciais
Bancos reforçam times e adotam IA para enfrentar onda de recuperações judiciais de grandes empresas.

Bancos e grandes escritórios de advocacia estão montando forças-tarefa robustas para lidar com a avalanche de recuperações judiciais que atinge gigantes como Casas Bahia, Braskem e Grupo Pão de Açúcar. A estratégia vai muito além de contratar gente: envolve inteligência artificial, monitoramento de patrimônio pessoal de sócios e uma mudança estrutural na forma como o crédito de risco é gerido. O cenário sugere que a “UTI do crédito” veio para ficar.

O tamanho do problema em números

Dados da consultoria RGF Associados mostram que 6.341 CNPJs estavam em recuperação judicial ao fim de junho, alta de 21,2% em 12 meses. Na modalidade extrajudicial, o salto foi de 38,4%, totalizando 346 empresas. O volume de dívidas assusta: a Raízen lidera com mais de R$ 61 bilhões, seguida pela Braskem (cerca de R$ 56 bilhões) e Casas Bahia (R$ 17,3 bilhões).

Com a Selic em dois dígitos, especialistas não veem alívio no curto prazo. A deterioração setorial é transversal — saúde, incorporadoras, varejo e agronegócio aparecem simultaneamente nas listas de monitoramento.

Santander dobra aposta e mira prevenção

No Santander, a área de special situations para empresas com faturamento acima de R$ 80 milhões saltou de 13 para 33 profissionais. O superintendente Thiago Franco Martins explica que a expansão antecipa um cenário duro até 2027. A equipe acompanha hoje 1.500 companhias em dificuldade.

“O grosso segue em São Paulo, mas ganhamos capilaridade regional para chegar antes dos problemas”, diz Martins. A lógica é preventiva: renegociar antes que a recuperação judicial se torne a única saída, o que exige alinhamento entre todos os credores para não secar a liquidez do devedor.

O banco anônimo e a caça aos sócios

Outra grande instituição, sob anonimato, manteve o quadro de mais de cem pessoas, mas turbinou a análise com IA e big data. O foco mudou para o diagnóstico precoce: monitoram queda no volume de duplicatas, antecipação excessiva de recebíveis e blindagem patrimonial.

  • Alvo principal: patrimônio pessoal dos controladores.
  • Objetivo: reunir provas para pedidos de desconsideração da personalidade jurídica.
  • Estratégia: vender carteiras podres a fundos e restringir novas linhas.

Essa postura agressiva acelera o ciclo: crédito mais caro e escasso empurra mais empresas para a UTI.

Advocacia vive “pico histórico” e muda de patamar

Nos escritórios, a reestruturação deixou de ser vista como área cíclica. O Mattos Filho promoveu Victoria Villela Boacnin a sócia no fim de 2025 e expande a equipe. O SOB Advogados apostou em senioridade para unir análise econômica e negociação jurídica.

Otávio França, da Exon Partners — boutique nascida em 2025 com R$ 4 bilhões em passivos sob mandato —, compara a RJ a quimioterapia: “se demora para iniciar, pode não adiantar”. A complexidade atual difere de crises passadas (Lava Jato, grupo X): não há gatilho único, mas uma soma de juros altos com fragilidades setoriais específicas.

O ciclo vicioso do crédito restrito

Apesar do volume, os bancos não devem sofrer choque de balanço imediato. As perdas já são provisionadas e a exposição, reduzida via venda de carteiras. O efeito colateral, porém, recai sobre a economia real: instituições capitalizadas, mas avessas a risco, encarecem o funding.

Antes da RJ, tentam-se renegociações e aportes de “dinheiro novo” lastreados em boas garantias. Em casos sistêmicos como Raízen e Braskem, os credores formam comitês para alinhar tratamentos prévios. Nem sempre funciona.

O que observar daqui para frente

A profissionalização das áreas de special situations sinaliza que o mercado precifica um novo normal de inadimplência corporativa elevada. Para empresários e investidores, o sinal claro é: a janela para reestruturação voluntária e negociação extrajudicial está se fechando mais rápido. Quem monitora indicadores de liquidez, endividamento e governança dos parceiros comerciais ganha tempo — e tempo, neste ambiente, é o ativo mais escasso.