Quase 70% dos conteúdos políticos gerados por inteligência artificial circulando nas redes sociais brasileiras descumprem a legislação eleitoral vigente. O dado vem de um monitoramento inédito que expõe não apenas a escala do problema, mas quem está por trás dele. A pergunta que fica: até quando as plataformas e os candidatos vão operar nessa zona cinzenta sem consequências práticas?
O mapa da irregularidade: números que assustam
O Observatório IA nas eleições, parceria entre Data Privacy Brasil e Aláfia Lab, analisou 413 publicações entre 1º de janeiro e 16 de agosto de 2026. O diagnóstico é direto: 66% não sinalizavam o uso da tecnologia, exigência obrigatória pela Justiça Eleitoral.
A divisão de finalidade revela a estratégia: 60% (250 casos) foram classificados como sátira para ridicularizar adversários, enquanto 40% (163 casos) configuraram desinformação pura. O relatório aponta falha dupla — de quem publica e de quem hospeda —, já que as ferramentas de rotulagem nativas das plataformas não estariam sendo acionadas ou moderadas a contento.
Quem puxa o gatilho: candidatos, partidos e o exército anônimo
A maior parte do material irregular parte de perfis anônimos, dificultando a rastreabilidade e a aplicação de sanções. No entanto, quando se olha para figuras com CNPJ ou mandato, a concentração é clara.
- Flávio Bolsonaro (PL): 13 publicações irregulares;
- Mário Frias (PL-SP): 10 publicações;
- Romeu Zema (Novo): 5 publicações;
- Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Eduardo Bolsonaro (PL): 3 publicações cada.
No recorte partidário, o PL lidera isolado com 28 ocorrências, seguido por PT (4) e PSDB (2). Para o ambiente de negócios, isso sinaliza uma assimetria de risco regulatório: legendas e figuras específicas estão mais expostas a sanções do TSE, o que pode impactar campanhas e, por extensão, a previsibilidade política.
O alvo preferido e a arma: deepfake atinge Lula e Flávio
A técnica dominante é o deepfake — manipulação de imagem ou voz com alto grau de realismo —, presente em 81% dos casos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concentra a maioria dos ataques: 112 publicações com conteúdo pejorativo. Flávio Bolsonaro aparece como segundo alvo mais visado, com 57 manipulações.
O TSE já proibiu o uso de deepfake quando configurar propaganda eleitoral. A fronteira entre sátira e crime eleitoral, porém, segue sendo testada diariamente nos feeds, criando insegurança jurídica para anunciantes e plataformas.
Por que o mercado deve prestar atenção nisso agora
Não é apenas uma questão de “fake news”. A ausência de rotulagem fere a Lei das Eleições e o Marco Civil da Internet, abrindo precedente para multas pesadas, remoção forçada de conteúdo e até suspensão de contas de alto alcance. Para investidores, isso se traduz em risco de reputação para marcas associadas a perfis ou partidos infratores e risco regulatório para as big techs, pressionadas a melhorar a moderação algorítmica.
Além disso, a proliferação de deepfakes não sinalizados degrada o ambiente de informação, dificultando a análise de cenários macroeconômicos e políticos baseada em dados confiáveis — insumo essencial para alocação de capital.
O que observar daqui para frente: regulamentação e responsabilidade
O acordo recente entre TSE e Google para ferramentas de proteção a candidatos indica que a Justiça Eleitoral busca respostas técnicas, não apenas punitivas. Nos próximos meses, três vetores merecem monitoramento contínuo:
- Edição de resoluções do TSE endurecendo penalidades para reincidência em deepfakes não rotulados;
- Implementação efetiva de “watermarks” obrigatórios em modelos generativos acessíveis no Brasil;
- Movimentação do Congresso para tipificar criminalmente a disseminação dolosa de deepfakes eleitorais.
Quem antecipar esses movimentos — seja ajustando estratégias de compliance digital, seja precificando o risco-país com mais precisão — sai na frente. O cenário de 2026 será o primeiro teste de estresse real da governança de IA no processo democrático brasileiro.
