Economia

Eleição 2026: O empate técnico que esconde uma virada fiscal silenciosa…

André Esteves discursa em evento BTG Pactual sobre eleição 2026 e pesquisa Nexus
André Esteves, presidente do BTG Pactual, apresenta cenário eleitoral 2026 em São Paulo

André Esteves cravou: a disputa presidencial de 2026 será decidida por uma margem de 51% a 49%, mas o vencedor ainda é uma incógnita. O presidente do BTG Pactual não tem dúvidas, porém, de que o próximo ocupante do Planalto herdará um país estruturalmente mais sólido do que em transições passadas.

A declaração foi feita durante evento em São Paulo, logo após a divulgação da nova pesquisa Nexus/BTG. Os números mostram um cenário de estabilidade tensa, com Lula (PT) à frente no primeiro turno, mas empatado tecnicamente nos cenários de segundo turno.

O que os números revelam sobre o tabuleiro

No cenário simulado para o primeiro turno, o atual presidente registra 40% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro (PL) aparece com 36%, uma diferença que coloca o petista numericamente à frente, porém fora da zona de conforto para uma vitória imediata.

O dado mais relevante surge na simulação de segundo turno. Lula empata tecnicamente tanto contra Flávio Bolsonaro quanto contra o escritor Augusto Cury (Avante). A leitura do mercado é clara: a polarização travou o eleitorado e pequenas variações marginais ditarão o resultado.

  • Primeiro turno: Lula 40% x Flávio Bolsonaro 36%
  • Segundo turno: Empate técnico nos dois cenários testados
  • Projeção: Segundo turno dado como “estatisticamente muito difícil de se resolver no primeiro”

O “país arrumado” que ninguém comenta

Esteves evitou apostar no vencedor, mas foi enfático sobre a herança econômica. Para ele, o Brasil de 2027 será “muito mais arrumado” do que nas transições de 1994 ou 2002. A tese central é que a sociedade fez “mais escolhas certas do que erradas” nas últimas décadas, criando uma base institucional resistente.

Esse otimismo estrutural, no entanto, tem um condicionante explícito: a chegada dos juros civilizados. O presidente do BTG defende que a Selic, hoje em 14%, tem caminho pavimentado para cair à metade, atingindo 7%.

O corte de 0,25% e a meta dos 7%

O mercado precifica um corte de 0,25 ponto percentual na reunião do Copom desta quarta-feira (16). Esteves considera o movimento tímido diante do potencial. “Levar juros de 14% para 7% é perfeitamente possível e tem impacto enorme na sociedade. Vale mais do que qualquer programa social”, afirmou.

A argumentação conecta a política monetária diretamente ao equilíbrio fiscal. Sem juros reais elevados, a dinâmica da dívida pública muda de figura, liberando espaço orçamentário para investimentos sem ruptura no teto de gastos.

O “absurdo” dos títulos isentos e a conta da receita

O ajuste necessário, segundo Esteves, passa por dois pilares: despesa e receita. No lado da receita, o alvo principal são os títulos isentos — LCIs, LCAs, CRIs, CRAs e debêntures incentivadas.

O banqueiro foi direto ao assumir o conflito de interesses: “Eu sou detentor e emito esses títulos. Mas, simplesmente, está errado”. O volume de isenções, na visão dele, distorce a alocação de capital e erosiona a base tributária, tornando o ajuste fiscal incompleto enquanto persistir.

O que observar daqui para frente

A convergência entre o calendário eleitoral e o ciclo de cortes de juros cria uma janela de risco e oportunidade única. Se a Selic caminhar para um dígito único sustentável antes de 2026, o governo de plantão colhe os frutos do crescimento com inflação controlada. Se o fiscal derreter na pré-campanha, a autonomia do Banco Central será testada como nunca.

Para o investidor, o sinal está dado: a eleição será decidida no detalhe, mas a tese de “país arrumado” depende de uma variável única — a coragem política de taxar o que hoje é isento. O próximo Copom e a tramitação da reforma tributária no Congresso dirão se o otimismo de Esteves tem lastro ou se é apenas mais uma aposta de mercado.