A presidenta da Fenaj, Samira de Castro, alerta: a crise institucional no Judiciário e a lógica de redes sociais estão empurrando propostas estruturais para fora da campanha de 2026. Para o setor produtivo, isso significa navegar em águas turvas sem bússola de políticas públicas claras. O vácuo de debate sério afeta diretamente a previsibilidade de investimentos.
O diagnóstico: atenção pulverizada e marketing vazio
Samira define o cenário como um “processo violento de tiktokização”. Candidatos priorizam coreografias e cortes virais em detrimento de programas de governo. Simultaneamente, a grande mídia corre atrás da audiência instantânea que escândalos como o caso Master garantem.
O resultado é um duplo esvaziamento. De um lado, a pauta judiciária monopoliza o noticiário. Do outro, a superficialidade impede que temas como segurança jurídica e arcabouço regulatório cheguem ao eleitor com profundidade.
Impacto direto: o custo da incerteza para o negócio
Quando o debate eleitoral ignora problemas estruturais, o empresário perde referências para decisões de longo prazo. A ausência de discussão sobre mudanças climáticas, exploração de terras raras e instalação de data centers cria zonas de risco regulatório.
Samira aponta que a sociedade civil organizada vê suas proposições ignoradas. Para o investidor, a mensagem é clara: o ambiente de negócios continuará refém de conjunturas de curto prazo, sem a ancoragem de um projeto nacional debatido às claras.
O papel da mídia: declaratório versus investigativo
A dirigente da Fenaj critica o “jornalismo declaratório” — o mero registro de “quem disse o quê” — que domina a cobertura de crises. Ela defende uma “segunda agenda” insistente: cobrir o Judiciário, sim, mas reservar espaço nobre para economia, geopolítica e demandas sociais com fontes plurais.
O desafio é estrutural. Veículos competem com algoritmos por engajamento momentâneo. Quem financia jornalismo de profundidade disputa atenção com danças de 15 segundos. A equação econômica atual pune a apuração custosa e premia o clique fácil.
Temas urgentes que sumiram do radar
A entrevista elenca eixos que deveriam nortear o debate, mas estão ausentes:
- Adaptação climática: como candidatos pretendem lidar com eventos extremos que já impactam logística e agro?
- Terras raras: marco regulatório para exploração estratégica soberana versus interesses externos.
- Data centers: infraestrutura energética, hídrica e tributária para atrair — ou não — esse ativo global.
- Interferência geopolítica: pressão estadunidense sobre cadeias de suprimentos e soberania digital.
Quem ganha com o vácuo?
Samira é direta: segmentos políticos e econômicos se beneficiam da crise permanente. Vazamentos seletivos e investigações direcionadas viram ferramentas de projeto de poder. A imprensa, ao embarcar na onda do engajamento, deixa de cumprir a função social de separar ruído de sinal relevante.
O empobrecimento das campanhas não é acidente. É consequência de um sistema que recompensa a superficialidade. Poucos ousam apresentar diagnósticos complexos quando o eleitorado — e o algoritmo — premiam a simplicidade performática.
O que observar daqui para frente
Até outubro, monitore dois movimentos. Primeiro: se veículos de referência conseguem sustentar a “segunda agenda” prometida, trazendo especialistas setoriais para decodificar propostas — ou a falta delas. Segundo: a reação do mercado a eventuais compromissos vagos ou contraditórios nas áreas de clima, mineração estratégica e infraestrutura digital.
A qualidade da informação disponível nos próximos 20 dias ditará a margem de erro nas projeções de cenário para 2027. Quem filtrar ruído e focar em dados concretos de plataformas de governo — por mais escondidas que estejam — terá vantagem competitiva na alocação de capital e na gestão de risco regulatório.
