Economia

Batistas compram a Avibras: o que muda no xadrez da defesa nacional?

Foguete Avibras ASTROS 2020 em plataforma de lançamento com bandeira do Brasil ao fundo
Sistema ASTROS 2020 da Avibras: ativo estratégico agora sob controle dos irmãos Batista.

A Superintendência-Geral do Cade aprovou a aquisição da Nova AVB — holding que controla os ativos da Avibras — pelos irmãos Joesley e Wesley Batista. A decisão tira a fabricante de mísseis e foguetes da recuperação judicial e coloca um dos maiores conglomerados privados do país no comando de uma empresa classificada como estratégica para a soberania nacional.

Mas a canetada do órgão antitruste não encerra o jogo. A operação ainda pode ser contestada por terceiros ou avocada pelo Tribunal do Cade antes da assinatura final. Enquanto o processo corre, a fábrica de Jacareí (SP) retoma a produção com 480 funcionários e uma carteira de projetos que vai muito além de artilharia convencional.

O portfólio que interessa ao mercado global

A Avibras não é apenas uma fábrica de armas; é um centro de tecnologia de dupla aplicação — militar e civil. O ativo mais conhecido é o sistema ASTROS 2020, plataforma de artilharia de foguetes e mísseis com alcance de até 300 km, já integrada ao Exército Brasileiro e exportada para países do Oriente Médio e da Ásia.

Na esteira desse sistema, a empresa desenvolve o Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), também com alcance de 300 km, atualmente em fase final de certificação. Para completar o arco de capacidades, há o Skyfire, foguete de 70 mm lançável de helicópteros, aeronaves ou plataformas terrestres, e sistemas de defesa antiaérea de baixa e média altitude — estes últimos em parceria com players internacionais.

  • ASTROS 2020: Artilharia de saturação e precisão (alcance 300 km).
  • MTC: Míssil de cruzeiro tático em certificação.
  • Skyfire: Foguete 70 mm ar-terra e terra-terra.
  • Defesa Antiaérea: Sistemas FILA (baixa altitude) e média altitude.

Do chão de fábrica ao espaço: a dualidade tecnológica

O diferencial competitivo da Avibras está na verticalização aeroespacial. A empresa domina o ciclo completo de propulsão sólida: projeta, testa e fabrica motores-foguete, veículos suborbitais (como o VS-50) e o propulsor S50, peça-chave do Veículo Lançador de Microssatélites (VLM-1).

Essa capacidade coloca a companhia no centro do Programa Espacial Brasileiro. Ela fornece foguetes de treinamento para os centros de lançamento de Alcântara (MA) e Barreira do Inferno (RN). Para os novos controladores, isso significa acesso a uma cadeia de suprimentos de alta complexidade, difícil de replicar e com barreiras de entrada altíssimas — tanto tecnológicas quanto regulatórias.

Da greve histórica ao selo de Empresa Estratégica

O caminho até aqui foi turbulento. Em março de 2022, a empresa demitiu 400 trabalhadores e pediu recuperação judicial com dívida declarada de R$ 600 milhões. Seguiu-se uma paralisação de 1.280 dias — uma das mais longas da indústria nacional — motivada por atrasos salariais.

A virada ocorreu em maio de 2026. A unidade retomou as atividades sob o nome Avibras Aeroco e, dias depois, ganhou do Ministério da Defesa a certificação de Empresa Estratégica de Defesa (EED). O status blinda a companhia de intervenções externas e garante prioridade em encomendas governamentais. Em julho, o presidente Lula visitou a planta e sinalizou ampliação de contratos públicos.

Por que os Batista entraram agora?

A J&F, holding dos irmãos Batista, classificou a compra como “oportunidade de entrada nos setores de defesa e aeroespacial”. A leitura de mercado aponta três vetores:

  1. Ativo barato, tecnologia cara: Comprar a Avibras sai mais barato que desenvolver do zero capacidades de propulsão e guiagem.
  2. Cenário geopolítico favorável: Orçamentos de defesa crescem globalmente; o Brasil busca autonomia e parceiros privados confiáveis.
  3. Sinergia logística: A expertise da J&F em gestão de grandes operações e comércio exterior pode destravar exportações travadas burocraticamente.

Mas o efeito mais relevante aparece no tabuleiro regulatório. A condição de EED impõe restrições a mudanças de controle acionário que precisarão ser navegadas com o Ministério da Defesa — não apenas com o Cade.

O que observar daqui para frente

Três marcos definirão se a aposta dos Batista se paga: a homologação final pelo Tribunal do Cade (sem restrições que inviabilizem a gestão), a renegociação dos passivos trabalhistas e tributários remanescentes da recuperação judicial e, principalmente, a conversão do credenciamento EED em contratos assinados — tanto com o governo federal quanto com clientes de exportação que aguardam sinal de estabilidade financeira.

Para investidores e fornecedores da cadeia de defesa, o sinal verde do Cade é apenas o primeiro movimento. A partida real começa quando a nova gestão apresentar o plano de negócios para os próximos 24 meses.