Justiça

MPF e DPU na Justiça: O segredo do data center de R$ 200 bi do TikTok

Vista aérea do Complexo do Pecém com construção do data center do TikTok em destaque
Obra do data center do TikTok no Complexo do Pecém, alvo de ação do MPF e DPU.

O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) entraram com ação civil pública para paralisar o primeiro data center do TikTok na América Latina. O empreendimento de R$ 200 bilhões, em construção no Complexo do Pecém (CE), teria sido licenciado por um rito simplificado — o mesmo usado para kartódromos — apesar de consumir energia equivalente a 843 mil residências e captar água subterrânea em região semiárida. A Justiça agora decide se a operação, prevista para 2027, pode seguir sem estudos de impacto profundos.

O tamanho do problema: números que assustam

O projeto pertence à Omnia, joint venture da Pátria Investimentos com a Casa dos Ventos. O TikTok figura apenas como cliente-âncora. Mesmo assim, a escala é industrial: duas edificações de 150 MW cada, somando 300 MW na primeira fase — dois terços de toda a geração energética do Ceará hoje.

  • Investimento total: R$ 200 bilhões (R$ 108 bi só em equipamentos).
  • Consumo diário: 5.040 MWh, vindos de parque eólico, com backup de 120 geradores a diesel.
  • Água: Licença prévia autorizava 19,7 mil L/dia; licença de instalação saltou para 144 mil L/dia.
  • Modelo ZPE: 100% do processamento será exportado (serviços), aproveitando benefícios fiscais de Zona de Processamento de Exportação.

Licenciamento “simplificado” para gigante de energia

O cerne da disputa jurídica é o instrumento usado. A Semace (órgão estadual) exigiu apenas um Relatório Ambiental Simplificado (RAS), classificando a atividade como baixo ou médio impacto. Para o Procurador Anastácio Tahim Júnior e o Defensor Edilson Gonçalves Filho, isso contraria a resolução do Conama: diante de dúvida idônea sobre a significância do impacto, o sistema exige o estudo mais robusto (EIA/RIMA), não o mais brando.

Além do enquadramento questionável, a ação aponta dados subestimados ou incorretos. A promessa de energia “100% renovável” esconde a termelétrica a diesel de 120 geradores para redundância. Também não houve medição de ruído, dispensada por critério considerado arbitrário pelos autores da ação.

Água no sertão: a conta que não fecha

O Ceará enfrentou emergência hídrica em 16 dos últimos 21 anos. A captação de água subterrânea para resfriamento dos servidores, sem estudo de viabilidade hídrica rigoroso, é o ponto mais sensível. O salto de quase 7x no volume outorgado entre as licenças (de 19,7 mil para 144 mil litros/dia) levanta suspeitas sobre a real necessidade e a capacidade do aquífero suportar a demanda sem comprometer o abastecimento humano e agrícola da região.

O direito indígena ignorado

O segundo pilar da ação é a ausência de consulta prévia, livre e informada ao povo Anacé, vizinho ao complexo portuário. A Convenção 169 da OIT obriga o Estado a consultar comunidades tradicionais antes de autorizar empreendimentos que as afetem. A Omnia alegou não ter esse dever; a Semace considerou válidas reuniões realizadas após a emissão das licenças.

Para MPF e DPU, o data center se soma a um passivo histórico: a expansão do porto já provocou deslocamento forçado de parte dos Anacé, resultando na criação da Reserva Taba dos Anacé. A nova instalação agravaria a pressão sobre o território tradicional.

A aposta geopolítica do governo e o risco jurídico

O empreendimento não nasceu no vácuo. Ele é a vitrine de uma política federal de atração de data centers: medida provisória (caducada, mas eficaz no timing) que vinculava ZPEs a energia renovável, e recente aprovação no Senado de descontos tributários para importação de equipamentos — a indústria projeta R$ 1,5 trilhão em investimentos.

A localização é estratégica: a 60 km de Fortaleza, onde 18 cabos submarinos conectam o Brasil ao mundo. O governo vê no Pecém a chance de exportar serviços de TI (meta de R$ 80 bi/ano pelos cinco data centers planejados) e descentralizar infraestrutura do eixo Rio-SP. Porém, a ação expõe a fragilidade do atalho regulatório: se a Justiça conceder a liminar pedida, o cronograma de 2027/2028 e a segurança jurídica do modelo ZPE para data centers ficam em xeque.

O que observar daqui para frente

A Omnia afirma possuir “solidez técnica e jurídica” e todas as licenças válidas. Semace, governo do Ceará e prefeitura de Caucaia ainda não foram notificados formalmente. O TikTok disse não ser parte no processo. Os próximos passos decisivos são:

  • Decisão sobre a tutela de urgência: se o juiz suspende as obras/operação até novo licenciamento.
  • Exigência de EIA/RIMA completo, com estudo de viabilidade hídrica independente.
  • Realização de consulta prévia aos Anacé nos moldes da Convenção 169.
  • Posicionamento do Congresso sobre a permanência dos incentivos fiscais para data centers em ZPEs, caso o modelo de licenciamento seja invalidado.

Para investidores e players de infraestrutura, o caso Pecém virou o “leading case” do setor: definirá se o Brasil consegue conciliar a corrida por soberania digital e IA com a rigidez da legislação ambiental e indigenista. A resposta judicial ditará o ritmo — e o custo — dos próximos anúncios bilionários.