Mais de 90 gestoras de fundos viram seus ativos sob gestão encolherem 50% ou mais entre 2019 e 2024. Nomes consagrados como Verde, Truxt e casas históricas do Leblon figuram na lista.
O fenômeno não é pontual: reflete uma mudança estrutural na forma como o investidor brasileiro aloca capital. E os números sugerem que a sangria ainda não estancou.
A tempestade perfeita que ninguém previu
Três forças atuaram em simultâneo. A Selic manteve-se em dois dígitos por 33 meses consecutivos — o ciclo mais longo de juros altos desde o Plano Real. Paralelamente, títulos públicos isentos de IR (LCI, LCA, CRI, CRA) tornaram-se acessíveis ao varejo via plataformas digitais. Por fim, os ETFs de renda fixa e multimercado democratizaram estratégias que antes exigiam aplicações mínimas de R$ 1 milhão.
O resultado: o investidor pessoa física, que respondia por 38% do patrimônio dos fundos multimercado em 2019, caiu para 24% no fechamento de 2024. O varejo migrou para alternativas mais baratas, líquidas e transparentes.
Os números que expõem a dimensão do rombo
Dados da Anbima compilados pelo Estadão mostram:
- 92 gestoras perderam ao menos metade do patrimônio no quinquênio
- O segmento multimercado encolheu R$ 287 bilhões no período
- Fundos de ações viram saída líquida de R$ 42 bilhões apenas em 2024
- A taxa média de administração caiu de 1,8% para 1,2% ao ano — pressão direta da concorrência passiva
Entre os nomes mais afetados, a Verde Asset viu seu principal fundo multimercado recuar de R$ 28 bilhões para R$ 11 bilhões. A Truxt, que chegou a administrar R$ 17 bilhões, encerrou 2024 com R$ 6,3 bilhões. Casas boutique do Leblon, antes restritas a investidores qualificados, fecharam as portas ou se fundiram a plataformas maiores.
Por que os gigantes não conseguiram se defender
A resposta está na estrutura de custos. Um fundo multimercado tradicional carrega taxa de administração, taxa de performance, custódia, auditoria e distribuição. O custo total ao investidor supera 2,5% ao ano em muitos casos. Um ETF de mesmo perfil cobra 0,3% a 0,6%.
Com a Selic a 13,75% no pico, o custo de oportunidade de pagar 2,5% em taxas tornou-se impossível de justificar. Mesmo gestores com histórico de alpha consistente viram resgates em massa — o investidor passou a priorizar previsibilidade de custo sobre potencial de retorno excedente.
O efeito colateral nos pequenos negócios
Gestoras com menos de R$ 500 milhões sob gestão enfrentam dilema existencial. A receita com taxa de administração mal cobre a folha de analistas, compliance e tecnologia. Pelo menos 14 casas fecharam fundos em 2024 e devolveram cotas aos investidores — número recorde desde 2016.
Mas o efeito mais relevante aparece na concentração de mercado. As dez maiores gestoras agora detêm 62% do patrimônio total da indústria, contra 48% em 2019. A sobrevivência exige escala, e a escala exige distribuição em plataformas de varejo — justamente o canal que mais pressiona margens.
O que muda a partir de março
A nova regra de tributação de fundos (Lei 14.754/2023), em vigor desde janeiro, igualou a alíquota de come-cotas entre fundos exclusivos e abertos. O benefício fiscal que blindava grandes investidores em estruturas exclusivas desapareceu. Isso deve acelerar a migração para ETFs e fundos de índice, que mantêm eficiência tributária superior.
Outro vetor: a CVM colocou em consulta pública a possibilidade de fundos de varejo cobrarem taxa de performance apenas acima de benchmark — hoje, muitos cobram sobre ganho absoluto. Se aprovada, a medida comprime ainda mais a receita das gestoras ativas.
O que observar daqui pra frente
Três indicadores sinalizarão se a indústria estabiliza ou segue encolhendo: (1) captação líquida de fundos multimercado nos primeiros dois trimestres de 2025; (2) evolução da taxa média de administração — se parar de cair, a reestruturação de custos chegou ao limite; (3) lançamento de novos fundos ativos com estrutura de custos competitiva (taxa zero de administração + performance apenas acima de CDI + IPCA).
Gestoras que não repensarem modelo de precificação e distribuição correm risco real de irrelevância. O investidor já decidiu: paga por performance comprovada, não por promessa de gestão ativa.
