A Braskem viu sua participação no mercado brasileiro de resinas despencar de até 75% para 49% em um ano, enquanto concorrentes internacionais aproveitaram custos menores de produção para ganhar espaço. O pedido de recuperação extrajudicial protocolado pela petroquímica escancara um problema estrutural: a indústria nacional perdeu competitividade.
A companhia reconheceu uma dívida de US$ 10,9 bilhões (cerca de R$ 56,2 bilhões) e já tem apoio de 39,6% dos credores para o plano de reestruturação. Mas o tamanho do passivo é apenas a ponta do iceberg.
O que explica a perda de mercado?
Especialistas apontam um fator determinante: a matéria-prima. Enquanto os Estados Unidos ampliaram a produção de gás natural e baratearam o etano usado na fabricação de plásticos, o Brasil segue dependente da nafta, um insumo derivado do petróleo com custo mais alto.
O ex-diretor da ANP, Décio Oddone, resume o cenário: a indústria petroquímica americana se tornou tão competitiva que passou a exportar produtos para o Brasil, pressionando as margens da Braskem em seu próprio território.
China deixou de comprar e passou a vender
Outro golpe veio do Oriente. A China, que antes importava polipropileno e polietileno, expandiu sua capacidade produtiva e reduziu drasticamente as compras externas. O resultado foi um excesso de oferta global que derrubou os preços das resinas.
Frederico Fernandes, especialista em precificação petroquímica da Argus, explica que a combinação foi devastadora: menos vendas, preços baixos e margens mínimas.
Uma dívida bilionária e concentrada
O passivo da Braskem pode se tornar a segunda maior recuperação extrajudicial do país, atrás apenas da Raízen, que acumula cerca de R$ 65 bilhões em dívidas.
Juliana Biolche, diretora do Observatório da Recuperação Extrajudicial, destaca que além do valor, chama atenção a capilaridade da dívida — embora a reestruturação esteja limitada ao setor financeiro. Os principais credores são bancos estrangeiros, e apenas 7,6% dos papéis foram emitidos no Brasil.
Distribuição da dívida:
- Dívida total: US$ 10,9 bilhões
- Papéis emitidos no Brasil: 7,6%
- Concentração: bancos estrangeiros
- Apoio dos credores: 39,6%
O efeito nos pequenos negócios
A reestruturação da Braskem não afeta apenas o mercado financeiro. Empresas que dependem de resinas plásticas para produzir embalagens, autopeças e eletrodomésticos podem sentir o impacto na cadeia de suprimentos.
Com a concorrência estrangeira ganhando espaço, a indústria nacional precisa se adaptar a um novo cenário de preços e oferta. Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.
O que observar daqui pra frente
O plano de recuperação da Braskem depende agora da aprovação dos credores e da capacidade da empresa de renegociar suas dívidas sem interromper as operações. A petroquímica afirma enfrentar uma crise de liquidez por causa do ciclo prolongado de baixa no setor, com queda de demanda e excesso de oferta mundial.
Para quem acompanha o mercado, os próximos meses serão decisivos: a recuperação da Braskem pode sinalizar se a indústria petroquímica brasileira tem fôlego para competir em um cenário global cada vez mais desafiador. Acompanhar a evolução da participação de mercado da empresa e a resposta dos concorrentes estrangeiros será essencial para entender os rumos do setor.
A reestruturação da dívida é apenas o primeiro capítulo de uma história que envolve competitividade industrial, custos de produção e a posição do Brasil no mercado global de plásticos.
