Economia

Hering vale 86% menos e acionistas tentam saída da Azzas

Logotipo da Hering em negociação para saída da Azzas 2154
Família fundadora negocia recompra da Hering após desvalorização de 86% sob o conglomerado Azzas 2154.

A família fundadora da Hering iniciou negociações para comprar a marca de volta da Azzas 2154. O que parece uma retomada nostálgica, no entanto, é um movimento desesperado para escapar de uma desvalorização brutal e de um racha entre os controladores do conglomerado.

O choque de valuation e a fuga dos sócios

Acionistas representando 11% da Azzas contrataram o banco BR Partners para intermediar a compra. O alvo é recuperar o controle da Hering, mas o obstáculo é financeiro e diplomático: a proposta precisa convencer Alexandre Birman e Roberto Jatahy, os dois maiores nomes da companhia. A Azzas declara oficialmente que a marca não está à venda e não comenta rumores.

Os números explicam a urgência do bloco Hering. Em 2021, quando vendida ao então grupo Soma, a empresa de vestuário básico foi avaliada em R$ 5,1 bilhões. Hoje, estimativas internas indicam que o ativo vale meros R$ 700 milhões. Uma implosão de 86% do valor em poucos anos.

O desempenho que justifica a revolta

A operação da Hering reflete diretamente esse desplome. No primeiro trimestre, a receita bruta da unidade encolheu 18,5% na comparação anual, somando R$ 502,3 milhões. A justificativa oficial da Azzas é que a marca passa por uma fase de transição.

O plano em curso é enxuto: cortar estoques, zerar vendas com margem negativa e fechar franquias de baixo faturamento. Mas o efeito mais relevante da crise aparece muito além das vitrines da Hering.

A guerra entre Birman e Jatahy

A deterioração financeira acelerou um desgaste que já existia na cúpula. Birman e Jatahy têm visões opostas sobre como gerir o varejo de moda, e a tensão já ultrapassou as salas de reunião.

Jatahy recorreu à Justiça para barrar a retirada da Reserva de sua unidade de negócios. Birman, por sua vez, levou o litígio para a Câmara de Arbitragem do Mercado (CAM), da B3. Com a empresa sendo desmembrada, a definição de quem fica com ativos valiosos como Reserva e Farm tornou-se o centro da disputa.

Raio-X da Azzas 2154

  • Marcas sob controle: Anacapri, Animale, Arezzo, Brizza, Carol Bassi, Cris Barros, Fábula, Farm, Foxton, Hering, Maria Filó, NV, Reserva, Schutz
  • Total de lojas: 2.000
  • Receita bruta (1º tri): R$ 3,12 bilhões
  • Ebitda recorrente (1º tri): R$ 358,5 milhões
  • Lucro líquido recorrente (1º tri): R$ 64 milhões

O impacto nos investidores

A briga pelo poder tem um preço claro no mercado. Nos últimos 12 meses, as ações da Azzas acumulam uma queda de 47,9%. A subvalorização dos indicadores financeiros e a incerteza sobre o destino das marcas principais sufocam qualquer tentativa de recuperação do papel.

Enquanto os controladores disputam os espólios no tribunal e na arbitragem, a possibilidade de uma cisão ganha força a cada dia.

O que observar daqui para frente

O desdobramento judicial e as vendas de ativos da Azzas exigem atenção redobrada. A Farm já está em processo de alienação, e o desmembramento do grupo deve ditar o novo valor da companhia. Para o investidor ou empresário do setor, o sinal de alerta está claro: em cenários de cisão corporativa, a recomposição de valor depende menos do balanço operacional e muito mais de quem vence a disputa pelos ativos estratégicos.