A transformação dos prédios residenciais em hotéis informais
O avanço das plataformas digitais de hospedagem provocou uma mudança silenciosa, mas profunda, na dinâmica dos edifícios residenciais brasileiros. O que antes era uma alternativa pontual para complementar a renda familiar rapidamente se transformou em um negócio milionário, colocando moradores e investidores em lados opostos de uma trincheira. A pacata rotina dos condomínios cedeu espaço à alta rotatividade de hóspedes, gerando debates acalorados sobre os limites do direito à propriedade e a preservação do lar.
Quando o descanso vira um privilégio
Para quem escolheu viver em um condomínio pela segurança e tranquilidade, a convivência com o vaivém constante de malas de rodinha e vozes estranhas nos corredores tem um preço alto. A síndica Lígia Ramos conhece bem essa realidade e relata episódios que ilustram o abismo entre a expectativa do morador e o comportamento do turista. Em um caso extremo, um locatário alugou o salão de festas do prédio para celebrar seu próprio casamento, ignorando por completo o descanso dos vizinhos. A frustração é evidente: quem está de passagem não se preocupa com quem precisa acordar cedo no dia seguinte.
A situação se agrava quando as próprias áreas de lazer se tornam o principal chamariz para os anúncios. Estruturas como piscinas aquecidas e academias equipadas, planejadas para o uso coletivo de residentes, viram verdadeiros atrativos hoteleiros, gerando sobrecarga e desconforto. Sidnalva dos Santos sentiu na pele essa invasão. Durante um delicado tratamento contra o câncer de pâncreas, a paz necessária para sua recuperação foi repetidamente interrompida pela efervescência dos hóspedes passageiros.
O mercado imobiliário e a promessa de lucro
Do outro lado do balcão, a motivação é estritamente financeira. Para muitos proprietários, a locação de curta duração é uma ferramenta legítima de retorno sobre o investimento. A corretora Lucidalva Santos defende que a operação exige responsabilidade e impõe limites, como horários restritos para as áreas comuns e proibição de eventos. Já profissionais do mercado, como a coordenadora comercial Alessandra Peixoto, argumentam que os turistas devem ter acesso a toda a infraestrutura, desde que respeitem as normas repassadas pelos anfitriões.
Essa visão de negócio se reflete até mesmo nos lançamentos imobiliários. Enquanto alguns empreendimentos na planta já deixam claro em suas convenções que a prática será proibida, outros utilizam a possibilidade de renda extra como forte argumento de vendas, atendendo a uma demanda crescente do mercado.
Um fenômeno global: o turismo que expulsa moradores
O problema, no entanto, ultrapassa as fronteiras do condomínio e atinge dimensões urbanas. Em cidades europeias como Barcelona, a expansão descontrolada dos aluguéis de temporada esvaziou bairros inteiros, expulsando residentes locais. O ativista Daniel Pardo alerta que, quando a cidade é tratada apenas como um produto de consumo, a comunidade se desintegra. Na Espanha, proprietários podem lucrar até quatro vezes mais com diárias do que com contratos longos, o que reduz drasticamente a oferta de moradias acessíveis e empurra os preços para o alto.
A palavra da Justiça e os desafios da governança
No Brasil, a balança começa a encontrar um equilíbrio nos tribunais. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) sinalizou que a decisão sobre permitir ou proibir as locações curtas pertence aos próprios condôminos. Para que a atividade seja autorizada, é exigida uma maioria qualificada de dois terços dos moradores, que deve aprovar a mudança da finalidade do edifício de estritamente residencial para misto. O professor de Direito Civil Cássio Rodrigues reforça que essa deliberação deve ocorrer em assembleia, devolvendo o poder de decisão à coletividade.
O caso do icônico Edifício Copan, em São Paulo, ilustra a complexidade do debate. Com mais de mil unidades, o prédio abriga uma operação gigantesca de hospedagem. O empresário Judson Sales administra centenas de apartamentos de temporada no local, recebendo mais de 120 mil hóspedes ao longo dos anos. Para o síndico Guilherme Milani, embora as transgressões existam tanto por parte de turistas quanto de moradores, o fluxo de pessoas acabou ajudando a revitalizar o centro da cidade, onde a taxa de vacância de imóveis é alarmante. A rede hoteleira, contudo, bate de frente, acusando a prática de concorrência desleal pela diferença na carga tributária.
Enquanto as plataformas de hospedagem argumentam que apenas facilitam o turismo e apontam a falta de construção civil como o verdadeiro vilão da crise habitacional, os condomínios continuam buscando suas próprias soluções. O desafio central permanece o mesmo: encontrar uma convivência possível entre a economicidade do espaço e o direito inegociável ao sossego.
