O economista Marcos Troyjo disparou um dos diagnósticos mais duros já feitos sobre a relação comercial sino-brasileira: o governo atual negocia com ingenuidade e Pequim enxerga o Planalto como presa fácil. A declaração ocorreu durante o Congresso Aço Brasil 2026, em São Paulo.
O ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) não usou meias palavras. Para ele, a assimetria nas trocas comerciais expõe uma fragilidade estratégica que vai muito além do saldo da balança.
O tamanho do desequilíbrio nas trocas
Os números não mentem. Em 2025, o déficit comercial do Brasil com a China superou US$ 40 bilhões — o maior da série histórica. Enquanto o gigante asiático exporta manufaturados de alta tecnologia, o lado brasileiro segue concentrado em soja, minério de petróleo bruto.
Essa estrutura reprimariza a pauta exportadora e travam a indústria nacional. O setor siderúrgico, anfitrião do evento, sente na pele: o aço chinês entra a preços subsidiados enquanto barreiras não tarifárias bloqueiam o acesso ao mercado contrário.
Por que a reciprocidade não sai do papel
Troyjo aponta três entraves que explicam a paralisia:
- Ausência de instrumento de defesa comercial ágil: processos antidumping levam anos no Brasil; na China, meses.
- Dependência de insumos estratégicos: fertilizantes, terras raras e equipamentos 5G vêm majoritariamente de lá.
- Diplomacia baseada em afinidade ideológica, não em interesses nacionais: o alinhamento automático enfraquece o poder de barganha.
O resultado é um jogo de soma zero onde apenas um lado define as regras.
O efeito cascata na indústria nacional
Não é só o aço. Montadoras, químicas e fabricantes de máquinas relatam perda de participação no mercado interno. Dados da CNI mostram que a ociosidade média da indústria de transformação bateu 22% no primeiro semestre de 2026 — o pior patamar desde 2016.
Pequenos e médios fornecedores da cadeia automotiva são os primeiros a fechar as portas. Eles não têm caixa para esperar a conclusão de investigações comerciais que se arrastam por governos.
Cenários para os próximos 12 meses
Três variáveis vão ditar o rumo da relação:
- Renovação ou não do acordo setorial de aço (vence em março de 2027)
- Posicionamento do Brasil na OMC sobre subsídios industriais chineses
- Entrada em vigor da nova lei de reciprocidade comercial, ainda em tramitação no Congresso
Se nada mudar, a projeção da FGV aponta déficit bilateral acima de US$ 50 bilhões em 2027.
O que observar daqui para frente
Empresários do setor real devem monitorar três sinais concretos: a nomeação do próximo secretário de Comércio Exterior, a agenda de missões oficiais a Pequim no segundo semestre e a disposição do Itamaraty para acionar mecanismos de salvaguarda. Quem espera diplomacia resolver sozinha costuma pagar a conta.
