Economia

Do frango ao foguete: como os Batista assumiram a Avibras e o que vem por aí

Irmãos Batista e foguetes da Avibras: transição da JBS para indústria de defesa
Joesley e Wesley Batista assumem controle da Avibras, maior fabricante de armas do Brasil

Os irmãos Joesley e Wesley Batista assumem em outubro o controle da Avibras, principal fabricante de armas do Brasil, encerrando a maior greve da história do setor. A transição marca a entrada dos maiores produtores de proteína animal do mundo no intricado mercado de defesa — um salto que pegou até generais de surpresa. O que explica a aposta bilionária em mísseis e artilharia?

A origem de um “deus ex machina” para a crise

Em dezembro de 2022, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, recebeu duas missões de Lula: pacificar os quartéis e resolver a Avibras. A empresa, nascida em 1961 por engenheiros do ITA em São José dos Campos, acumulava dívidas superiores a R$ 600 milhões, sendo R$ 230 milhões só em débitos trabalhistas. Seu último grande êxito de exportação datava de 2012 — a venda do sistema Astros-2 para a Indonésia.

O buraco era multifatorial: Exército com investimento contido, negócios com Arábia Saudita e Filipinas que não saíram do papel, e o fracasso do contrato de US$ 820 milhões com o Qatar para o MTC (Míssil Tático de Cruzeiro), vetado sob pressão de Israel sobre o governo Bolsonaro.

Por que os Batista? A conexão indonésia e o veto a estrangeiros

Joesley não escondeu a falta de intimidade com o setor. “O que é essa Avibras?”, perguntou a Múcio no início do ano — arrancando a piada de que “avi” não vinha de “aves”. A resposta veio de contatos antigos na Indonésia, onde a J&F disputa ativos com a Paper Excellence e atraiu US$ 2,5 bilhões do fundo soberano local em 2024. A PDS, credora indonésia da venda de 2012, teve sua dívida de ~R$ 220 milhões comprada pelo fundo Brasil Crédito em agosto de 2024, pavimentando o plano de recuperação aprovado em maio de 2025.

Para o Planalto, a solução era perfeita: Lula havia vetado qualquer comprador estrangeiro. Isso derrubou a australiana DefendTex, os emiratis do Grupo Edge e a chinesa Norinco — todos interessados.

A estrutura do negócio: family office, não J&F

O controle foi fechado em 21 de agosto pela Globe Investimentos, o family office dos Batista — a nova Avibras não integra a J&F. O Cade aprovou a operação no dia 14, e a transição começa na próxima semana. Os Batista lideraram aporte estimado em R$ 300 milhões via Brasil Crédito. Na ponta trabalhista, acordo prevê 850 demissões de remanescentes e 450 readmissões.

Gestão: o “dream team” entre o ITA e Brasília

Sami Hassuani, presidente no auge de 2008-2016 e engenheiro do ITA, reassume como CEO. Meta declarada: chegar a 2028 com mil funcionários e faturamento de R$ 500 milhões, focado em exportação. Para o conselho, Joesley convidou Bruno Dantas, recém-saído da presidência do TCU e ex-chefe da Intosai (“ONU dos tribunais de contas”), onde revisou manuais regulatórios de negócios de defesa — setor onde governos são os únicos clientes.

Nem Dantas nem Joesley têm experiência em defesa. O plano é que Hassuani toque a operação e Dantas estruture novas exportações.

Onde estão os clientes — e o dinheiro

  • Operadores atuais do Astros-2: Arábia Saudita, Malásia, Indonésia.
  • Alvo prioritário: Índia — onde a J&F já vende frango congelado e busca diversificar fornecedores militares.
  • Carteira interna: Exército brasileiro opera 44 lançadores Astros-2 que precisam de manutenção; certificação do MTC avança (teste bem-sucedido no Rio em agosto).

Múcio reintegrou a Avibras como Empresa Estratégica de Defesa, status que abre linhas de financiamento estatais. Mas os R$ 300 milhões prometidos para mísseis já foram contingenciados em agosto.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definem se a aposta vira lucro ou novo calvário: (1) a materialização do MTC — prioridade do Exército para justificar o R$ 1,5 bi já investido no desenvolvimento; (2) a capacidade de Hassuani e Dantas converterem contatos diplomáticos em contratos assinados, num ciclo global de rearmamento turbinado por EUA, Rússia e China; (3) o cenário eleitoral de 2026. Se Lula permanece, há promessa de mais verba para defesa (difícil no fiscal atual). Se a oposição vence, a porta para fornecedores estrangeiros reabre — e a Avibras precisará provar competitividade sem proteção de Estado.

Por ora, a fábrica de Jacareí reabriu. O primeiro foguete sob nova gestão ainda não foi disparado.