Uma pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (28) revela que a maioria do eleitorado apoia o pacote de medidas recentes do governo, enquanto a corrida presidencial de 2026 esquenta com um empate técnico no segundo turno. O levantamento aponta aprovação de 62% para a restrição às apostas online e 59% para o reajuste do Bolsa Família. Mas o dado que chama atenção está na intenção de voto: Lula e Flávio Bolsonaro aparecem numericamente empatados num eventual segundo turno.
Os números mostram um cenário de polarização estável, mas com sinais de que as ações recentes do Planalto podem estar mexendo com grupos específicos. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas entre 24 e 27 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais.
O que o eleitorado pensa de cada medida
O pacote anunciado pelo governo teve recepção majoritariamente positiva, mas com nuances importantes. A gratuidade de canetas emagrecedoras para tratamento de obesidade registra 58% de apoio. O detalhamento mostra que a aprovação não vem apenas de quem já acompanhava a notícia: parcelas significativas “não sabiam, mas acham boa ideia” ao serem informadas.
- Restrição às bets (cassinos online e Jogo do Tigrinho): 62% apoiam (40% já sabiam e aprovam + 22% souberam agora e concordam).
- Reajuste de 15% no Bolsa Família (mínimo sobe para R$ 691): 59% apoiam (45% já sabiam e aprovam + 14% souberam agora e concordam).
- Canetas emagrecedoras no SUS: 58% apoiam (38% já sabiam e aprovam + 20% souberam agora e concordam).
A resistência concentra-se em quem já conhecia as propostas e discorda: 21% no caso das bets, 31% no Bolsa Família e 28% nas canetas. O percentual de “não sabe/não respondeu” permanece baixo, entre 2% e 6%.
O recorte de gênero e renda que explica a vantagem de Lula
Segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest, o aumento da vantagem do presidente entre mulheres, eleitores de baixa renda e beneficiários do programa social pode estar diretamente ligado ao anúncio das medidas. As mulheres aprovam mais que os homens em todos os três itens.
A diferença é mais nítida nas canetas emagrecedoras: 62% das mulheres apoiam contra 53% dos homens. Na restrição às bets, a vantagem feminina é de 64% a 61%. No Bolsa Família, 62% delas aprovam frente a 56% deles. Esse alinhamento feminino às pautas sociais e de saúde aparece como um pilar da sustentação eleitoral atual.
Nordeste e jovens: as bases mais fiéis ao pacote
A geografia do apoio reforça o mapa eleitoral tradicional. O Nordeste lidera a aprovação do reajuste do Bolsa Família (72%) e das canetas (62%). Já o Sudeste é a região que mais endossa a proibição das bets (66%).
Mas o recorte etário traz um sinal de alerta — ou de oportunidade — para a oposição. Eleitores de 16 a 34 anos são os que mais aprovam o conjunto inteiro: 67% a favor da restrição às bets, 64% pelas canetas e 66% pelo reajuste do benefício. A adesão cai progressivamente nas faixas acima de 35 anos e entre idosos (60+), onde a margem de erro chega a cinco pontos.
Cenário 2026: polarização mantida, segundo turno indefinido
Na simulação de primeiro turno, Lula oscila de 37% para 39% e Flávio Bolsonaro vai de 33% para 34%. A distância permanece na casa de cinco pontos, dentro da margem de erro. Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD) aparecem com 4% cada, enquanto os demais não saem do traço.
O cenário muda radicalmente no segundo turno. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem com 42% cada — empate técnico perfeito. Na semana anterior, o filho do ex-presidente tinha 42% contra 41% do petista. A estabilidade sugere que o eleitorado já fez sua escolha binária e as medidas recentes, por enquanto, não romperam esse teto.
Indecisos caíram de 8% para 5%, enquanto brancos e nulos subiram de 7% para 10%. O endurecimento do voto “nenhum dos dois” pode ser a variável decisiva em 2026.
O que observar nas próximas semanas
A pesquisa captura o impacto imediato do anúncio, mas a sustentação desses números depende da execução. A implementação da proibição das bets — legalizadas em 2018 e regulamentadas em 2023 — enfrenta desafios jurídicos e operacionais. O reajuste do Bolsa Família depende de espaço fiscal no Orçamento. E a distribuição das canetas emagrecedoras exige logística do SUS e protocolo clínico.
Para o empresariado e investidores, o termômetro está na capacidade do governo transformar popularidade momentânea em entrega concreta sem desequilibrar as contas. O próximo teste virá com a tramitação das medidas no Congresso e a reação do mercado à expansão de gastos. Enquanto isso, a polarização Lula vs. Bolsonaro (filho) segue como o eixo central do jogo político.
