Economia

Dívida pública vai acelerar para 4% do PIB: o que ninguém te conta sobre 2027

Gráfico da dívida pública brasileira projetada para 4% do PIB em 2027
Projeção mostra aceleração da dívida pública para além de 4% do PIB anuais até 2027.

No atual mandato presidencial, a dívida pública avança 2,8% do PIB ao ano. Se nada mudar além do arcabouço fiscal vigente, o próximo quadriênio empurra esse ritmo para acima de 4% do PIB anuais. A conta não fecha — e o buraco é mais fundo do que parece.

Três forças empurram a trajetória para cima ao mesmo tempo. Entender cada uma é o primeiro passo para não ser surpreendido.

Os três pilares da aceleração

Primeiro, o ponto de partida: a dívida bruta encerra 2026 com 12 pontos percentuais a mais em relação ao fim de 2022. Partimos de uma base mais alta.

Segundo, o custo do dinheiro. Grande parte do estoque foi contratada durante a pandemia, com juros no chão. Esses títulos venceram e foram rolados nos últimos anos a taxas substancialmente maiores. A conta de juros pesa mais a cada rolagem.

Terceiro, o motor da economia perde força. O crescimento dos últimos anos foi extensivo — reduziu-se ociosidade, não aumentou produtividade. A taxa de desemprego caiu de 8,5% para 5,5%, um piso histórico. Não há espaço para repetir o truque: no próximo ciclo, o desemprego deve até subir levemente.

O erro coletivo dos prognósticos

Economistas subestimaram tanto o PIB quanto a queda do desemprego entre 2022 e 2025. O lado bom: crescemos mais, empregamos mais. O lado ruim: produtividade estagnou. O avanço veio de ocupar vagas ociosas, não de inovar ou ganhar eficiência.

Esse detalhe muda tudo. Sem folga no mercado de trabalho, o PIB potencial freia. E com PIB mais fraco, a razão dívida/PIB acelera mesmo sem novos déficits primários.

A receita de Salto e Pellegrini: 2% de superávit em quatro anos

Na quinta-feira (24), nas páginas do Estadão, Felipe Salto e Josué Pellegrini desenharam um ajuste para gerar superávit primário de 2% do PIB em quatro anos. A divisão: um terço por receita, dois terços por corte de gasto.

  • Receita: redução linear de 23,5% nos gastos tributários (ex.: dedução integral de saúde no IRPF).
  • Despesa: desvincular piso previdenciário e benefícios sociais do salário mínimo.
  • Despesa: indexar pisos constitucionais de saúde e educação pelo mesmo indexador do arcabouço fiscal.

As duas últimas medidas são o coração da proposta. Sem elas, o gasto primário obrigatório cresce acima da regra fiscal — e o juro real não cai.

Por que o gasto dita o juro real

A taxa básica de juros reflete o desequilíbrio entre oferta e demanda que o setor público injeta na economia. Quando o gasto primário cresce mais que o PIB potencial, o Estado adiciona demanda mais rápido do que a capacidade produtiva responde. O juro sobe para conter a inflação.

Portanto: sem frear a despesa obrigatória, não há queda de juro real. Sem queda de juro real, a dívida não estabiliza — mesmo com superávit de 2% do PIB.

O debate que não acontece

Faltando uma semana para a eleição, o noticiário gira em torno do Banco Master, do STF e de simbologias religiosas. O conflito distributivo real — quanto o Tesouro gasta, em quê, e quem paga a conta — segue fora da pauta principal.

O que observar daqui para frente

Três variáveis decidirão se o cenário de 4% do PIB/ano se confirma ou é evitado: (1) velocidade de aprovação de medidas que reduzem a rigidez do gasto obrigatório; (2) disposição política para cortar benefícios tributários concentrados na alta renda; (3) comportamento da taxa de desemprego — se subir acima de 6%, a arrecadação desacelera e o ajuste fica mais duro. A janela para agir é estreita; cada trimestre de inação eleva o custo da correção.