Economia

Leilão da Receita: PS5 por R$ 300 vira R$ 4 mil? Onde está o lucro real

Console PlayStation 5 em leilão da Receita Federal com martelo de juiz e valores em reais
PS5 arrematado por R$ 3.999 em leilão da Receita: lance inicial era R$ 554

Um PlayStation 5 arrematado por R$ 3.999 em leilão oficial da Receita Federal — enquanto o varejo vende o mesmo console novo, com garantia, por até R$ 4.600. O lance inicial era de R$ 554. A diferença entre a miragem do desconto e a realidade da disputa define quem sai no prejuízo.

Na primeira semana de outubro, a Receita abre propostas para 977 lotes em quatro estados. Entre eles, um PS5 a R$ 300 e dois iPhones 17 (256 GB) a R$ 600 cada — preços de tabela que equivalem a 5% e 10% do valor de loja, respectivamente. A sessão de lances acontece dia 13. Mas o edital avisa: não há garantia, o produto pode estar bloqueado ou danificado, e impostos como ICMS correm por conta do arrematante.

O gatilho que faz o lance subir sem freio

Thiago da Mata, CEO da Kwara — plataforma especializada em leilões de logística reversa —, confirma que as buscas quintuplicaram nas últimas semanas. O estopim foi o pedido de recuperação judicial da Casas Bahia, que injetou no mercado volumes expressivos de eletrodomésticos devolvidos: geladeiras, fogões, lavadoras.

O mecanismo psicológico é previsível. O preço de partida irrisório atrai a atenção. À medida que a disputa avança, o desejo de vencer sobrepõe o cálculo racional. “O participante precisa definir o teto antes de começar e ter disciplina para parar”, resume Da Mata. Quem não faz isso costuma pagar preço de varejo por produto sem nota fiscal, sem suporte e sem direito a arrependimento.

Checklist obrigatório antes de ofertar

  • Leia o edital inteiro — prazos, formas de pagamento, responsabilidades fiscais e regras de retirada estão lá.
  • Agende a visita presencial — é a única forma de confirmar se o item liga, se tem peças faltando ou se há senhas de bloqueio.
  • Some os custos invisíveis — frete, ICMS, taxas administrativas e eventuais reparos. O lance vencedor é só a base.
  • Pesquise o preço de mercado atual — use histórico de comparadores (Buscapé, Zoom) dos últimos 30 dias, não o valor de lançamento.
  • Defina o lance máximo e trave — configure alertas ou lances automáticos com teto rígido para evitar decisões no calor do momento.

O que os números da Receita revelam

Apenas na 8ª Região Fiscal (São Paulo), foram 12 leilões em 2026, totalizando cerca de 2.500 lotes. A taxa média de arrematação gira em torno de 90%. Para o órgão, isso indica que a maioria dos compradores consegue fechar negócio vantajoso. Os casos de lances acima do varejo são tratados como exceções pontuais, muitas vezes motivados por “empolgação combinada com falta de informação de preços”.

Sete novos certames estão programados para outubro, distribuídos entre Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. O manual do licitante e o calendário de visitação estão disponíveis no portal oficial da Receita.

O que observar daqui para frente

A expansão dos leilões de logística reversa — itens devolvidos por consumidores — tende a crescer com o aumento do e-commerce e das recuperações judiciais no varejo. Isso amplia a oferta, mas também eleva a variabilidade de condição dos produtos. Para o investidor ou revendedor, a margem segura estará cada vez mais na capacidade de inspeção técnica prévia e no controle estrito do teto de lance. Quem entra no leilão sem esses dois pilares não está comprando barato; está apostando.