Empresas americanas estão migrando em massa para modelos de inteligência artificial de “pesos abertos” para conter a explosão de custos com tecnologia. A mudança ameaça o domínio de laboratórios como OpenAI e Anthropic e já aparece nos balanços das maiores corporações do país.
Menções a esses modelos em teleconferências de resultados subiram seis vezes em relação ao ano passado, segundo a AlphaSense. Mas o que explica essa corrida repentina e quais setores lideram a troca?
O gatilho: a conta não fecha mais
O diretor de tecnologia do Tinder, Vinay Kuruvila, resumiu o drama: os gastos com IA saltaram de US$ 1 milhão para US$ 10 milhões anuais em apenas seis meses. “Não quero outro aumento de dez vezes”, afirmou. A solução encontrada foi desviar consultas simples para modelos abertos, muito mais baratos por token processado.
Na AT&T, o volume impressiona: 45 bilhões de tokens processados por dia. Andy Markus, chefe de dados e IA, diz que 40% das cargas já rodam em modelos abertos e a meta é chegar a 70% em um ano. “Nessa escala, cada centavo por token faz diferença”, explica.
Dados de uso confirmam a virada de mesa
Não é apenas discurso de executivo. Métricas de infraestrutura mostram a mudança real:
- No AI Gateway da Vercel, modelos de pesos abertos responderam por 56% dos tokens em agosto, contra 7% em dezembro.
- Na OpenRouter, os dez modelos mais usados são majoritariamente abertos e de laboratórios chineses.
Esses números indicam que a adoção deixou a fase experimental e virou padrão de produção.
Quem ganha e quem perde nessa disputa
O mercado de pesos abertos é liderado hoje por empresas chinesas como DeepSeek e Zhipu, mas a francesa Mistral e americanas como Nvidia, Reflection AI e Thinking Machines Lab também lançam alternativas competitivas. Para os laboratórios de ponta, o timing é sensível: a Anthropic prepara um IPO com avaliação acima de US$ 2 trilhões, enquanto a OpenAI busca rodada a US$ 1,2 trilhão e adiou sua oferta pública para 2027.
Ambas reagiram na semana passada lançando versões mais baratas de seus modelos principais, sinalizando que a guerra de preços já começou.
Além do preço: soberania e segurança pesam
Scott Wallace, da Digital Realty, revela outro vetor: “Dados de clientes, jamais, jamais, jamais vão para um modelo de ponta”. A operadora roda sua própria interface de chat sobre modelos abertos hospedados em infraestrutura privada. Assim, mantém informações sensíveis fora de APIs de terceiros e cumpre requisitos de conformidade que modelos fechados não atendem.
Essa camada de controle explica por que setores regulados — finanças, telecom, indústria — puxam a fila da migração.
O que observar daqui para frente
Acompanhe três sinais nos próximos trimestres: a velocidade com que modelos abertos igualam a precisão dos fechados em tarefas complexas; a resposta de preço da OpenAI e Anthropic para defender market share; e a evolução de marcos regulatórios que possam exigir auditoria ou localização de modelos — vantagem nativa das arquiteturas abertas. Quem antecipar esses movimentos define o orçamento de IA de 2025 sem surpresas.
