Economia

Fim das bets: R$ 62 bi evaporaram e o vício chegou aos 11 anos

Família brasileira preocupada com perdas financeiras e vício em apostas online, criança usando celular
O fim das bets expõe rombo de R$ 62,5 bi e vício que já atinge crianças de 11 anos

O governo federal proibiu as apostas on-line no dia 25 de setembro. A medida pôs fim a um ciclo que drenou R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras em apenas 18 meses — dinheiro que saiu do orçamento doméstico direto para o caixa das plataformas. Mas o prejuízo financeiro é apenas a ponta do iceberg.

Por trás dos números há uma emergência de saúde pública que atingiu desde o trabalhador endividado com agiotas até crianças de 11 anos. A reportagem revela como a ausência de regras por cinco anos criou uma máquina de adoecer gente — e o que muda agora.

O rombo no bolso das famílias

Entre outubro de 2024 e março de 2026, o Pix moveu quase R$ 351 bilhões para as bets. A diferença entre o apostado e o devolvido em prêmios — o prejuízo líquido — somou R$ 62,5 bilhões. Isso representa 0,68% de toda a renda disponível bruta das famílias no período, segundo o Comsefaz.

Em média, foram R$ 4,7 bilhões por mês saindo do consumo, da poupança e do pagamento de contas. Para o comércio e os serviços, é dinheiro que deixou de circular na economia real.

  • R$ 351 bi movimentados via Pix
  • R$ 62,5 bi de perdas líquidas das famílias
  • R$ 4,7 bi/mês de sangria média
  • 0,68% da renda disponível bruta

Cinco anos sem lei, cinco anos de faroeste

A Lei 13.756, de dezembro de 2018, autorizou as apostas de quota fixa. Mas a regulamentação só saiu em dezembro de 2023. Durante cinco anos, as plataformas operaram sem obrigação de avisos de risco, sem bloqueio de usuários compulsivos, sem limite de publicidade.

Quando as regras finalmente chegaram, determinavam que as empresas impedissem o acesso de viciados. Não aconteceu. Segundo o advogado Júlio Leone, as bets faziam o inverso: bombardeavam esses perfis com bônus e mensagens incessantes. “É aí que ela perde todo o capital”, resumiu.

Kaio, 42 anos, confirma: “O celular não parava de trazer mensagens.” Ele perdeu carro, casa e emprego. Hoje dorme no chão de um dormitório no interior de Goiás, afastado da família por medo de cobranças de agiotas. Faz tratamento no CAPS e toma três remédios por dia.

O cassino no bolso das crianças

Um levantamento da Frente Parlamentar Mista da Educação com 1.912 estudantes de 191 escolas expôs um dado alarmante: 20,4% dos alunos do ensino fundamental II e médio já apostaram on-line. A idade de estreia? 11 anos. Nada menos que 9,5% nessa faixa já haviam jogado.

A psicóloga Mariana Kehl, da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica: o cérebro adolescente tem o sistema de recompensa (dopamina) a todo vapor, mas o freio inibidor — córtex pré-frontal — só amadurece depois dos 20 anos. “O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar, mas não tem o aparato para frear o impulso da aposta seguinte.”

Luiz Carlos, 71, do Jogadores Anônimos, resumiu a diferença: “Na minha época, a gente tinha que sair de casa para jogar. Hoje não precisa mais. É um cassino dentro do seu bolso.”

Quando o vício vira ideação suicida

A psiquiatra Katia Branco, do Hospital das Clínicas de São Paulo, alerta: pacientes em tratamento relatam desesperança, isolamento, aumento do uso de álcool e ideação suicida decorrente do colapso financeiro. “Há quem tenha pensamentos de morte e, nos casos mais graves, ideação suicida em virtude dos prejuízos.”

No CAPS do Distrito Federal, a psicóloga Claudia Feres atende pessoas que tentaram autoextermínio. “É um pedido de socorro desesperado, como se falasse que precisa se ausentar da vida naquele momento.”

O neurocirurgião Orlando Maia destaca que o dependente muitas vezes não percebe o problema sozinho. “Precisam de pessoas da família ou de amigos que possam ajudar.”

O que muda a partir de agora

A Medida Provisória 1.394 revogou o capítulo 5 da lei de 2018. Com a proibição, o Ministério da Saúde anunciou busca ativa de apostadores contumazes, usando dados compartilhados pela Fazenda, Segurança Pública e Receita Federal. O SUS já ampliou teleatendimentos para vício em apostas.

Para empresários e investidores, o sinal é claro: o modelo de negócio baseado em aquisição agressiva de usuários vulneráveis e retenção por vício foi desmontado por risco sistêmico — não só regulatório, mas de reputação e responsabilidade social.

O que observar nos próximos meses: a efetividade do bloqueio de domínios e apps, a capacidade da rede pública de absorver a demanda por tratamento, e eventuais migrações para mercados paralelos ou offshore. O dinheiro parado nas contas das bets — e a devolução aos usuários — será o próximo capítulo operacional.

Enquanto isso, Kaio tenta recomeçar. “Um grande alívio”, disse ele ao saber da proibição. A frase resume o sentimento de quem viu a vida virar pelo avesso — e agora enxerga, pela primeira vez em seis anos, uma porta de saída.