Pesquisas recentes revelam um cenário atípico: a avaliação positiva do governo Lula travou nos 34% durante a campanha, desafiando a regra histórica de alta automática nesse período. O dado expõe uma fratura entre a máquina pública e o sentimento do eleitor que investidores e estrategistas precisam monitorar.
Desde o início oficial da disputa, em 16 de agosto, o índice de “ótimo/bom” oscilou entre 31% e 34%, enquanto a reprovação se mantém estável na casa dos 40%. A estagnação contrasta com a tradição de ganhos de dois dígitos vistos em pleitos anteriores.
O que a série histórica ensina sobre campanhas e aprovação
O Datafolha analisou os quatro presidentes que tentaram a reeleição desde a redemocratização. Em todos os casos, exceto o atual, a avaliação positiva subiu entre o começo da campanha e o primeiro turno. A regra era clara: o palanque funcionava como vitrine de realizações.
Veja como cada um se comportou no primeiro turno:
- FHC (1998): Saltou de 38% para 43% de aprovação; reprovação caiu de 19% para 17%.
- Lula (2006): Disparou de 38% para 47%, chegando a 53% no segundo turno.
- Dilma (2014): Subiu de 32% para 39%, atingindo 42% na reta final.
- Bolsonaro (2022): Quase estagnou no primeiro turno (30% para 31%), mas reagiu para 38% no segundo.
Bolsonaro, aliás, foi o único a chegar à votação com reprovação superior à aprovação — e o único a não se reeleger. A correlação não é casual.
Por que o “efeito campanha” não funcionou desta vez?
Especialistas apontam três vetores principais. O primeiro é o tempo: a minirreforma de 2016 cortou a campanha de 90 para 45 dias, comprimindo a janela de exposição. O segundo é a polarização radicada: o eleitorado já tem opinião formada antes mesmo do horário eleitoral começar.
O terceiro fator, segundo o cientista político Antônio Lavareda, é a “guerra de narrativas” travada fora da propaganda oficial. O caso Master, por exemplo, drenou a atenção que seria dedicada a entregas de governo, funcionando como um contrapeso negativo constante.
O cálculo do eleitor “regular” e o risco da comparação
Hoje, 24% dos entrevistados classificam a gestão como “regular”. Historicamente, é desse grupo que migram votos para “bom/ótimo” durante a disputa. Felipe Nunes, diretor da Quaest, resume o dilema: “Lula precisa convencer quem já conhece o governo, mas não sente a melhora no bolso”.
A campanha tentou injetar ânimo com medidas de impacto imediato: o reajuste do Bolsa Família (dia 18) e a MP que proíbe bets como o “Tigrinho” (dia 25). Críticos, como o senador Flávio Bolsonaro, classificaram as ações como “estelionato eleitoral”. O mercado, por sua vez, precifica a incerteza fiscal decorrente de benesses de última hora.
Cenários para o segundo turno: o precedente de 2022
Se a história se repetir, há espaço para recuperação entre os turnos. Bolsonaro ganhou 7 pontos percentuais de aprovação na reta final de 2022, impulsionado pelo pacote de bondades (Auxílio Brasil a R$ 600, auxílio-gás, benefícios a caminhoneiros e queda dos combustíveis).
Porém, o cientista político Felipe Nunes alerta: a melhora na avaliação de Bolsonaro não garantiu a vitória. O eleitor pode votar noIncumbent por rejeição ao adversário, sem necessariamente aprovar sua gestão. Isso desconecta intenção de voto de aprovação de governo — variável crucial para modelos de risco político.
O que observar nas próximas semanas
Três indicadores ditam o ritmo daqui para frente: a capacidade do governo de pautar entregas concretas acima do noticiário policial; a migração do eleitor “regular” para “bom”; e a reação dos mercados à expansão de gastos em ano eleitoral. A convergência entre avaliação de governo e intenção de voto, fenômeno clássico descrito por Lavareda, será o termômetro definitivo da governabilidade no próximo mandato.
