Faltando sete dias para o primeiro turno, os presidenciáveis usaram o último fim de semana para cravar posições que mexem diretamente com setores regulados e investimentos pesados. A agenda de rua serviu de vitrine para propostas que, se implementadas, redesenham regras para apostas online, crédito rural e exploração de óleo e gás.
O recorte mais nítido veio do presidente Lula (PT), que em caminhada na Zona Leste de São Paulo defendeu a proibição total da operação de bets no país — medida que assinou na véspera — e prometeu fiscalização dura contra casas clandestinas. Para o mercado, o sinal é de endurecimento regulatório imediato.
O eixo das apostas: proibição ou taxação pesada
O tema apareceu em três palanques distintos. Lula foi o mais enfático: “Quem quiser ganhar dinheiro, que arrume um jeito honesto de ganhar, mas não matando o povo pobre”. Augusto Cury (Avante), em Belo Horizonte, classificou as bets como ameaça à economia e à saúde mental, propondo extinção ou taxação maior. Ronaldo Caiado (PSD), em Goiânia, disse repudiar os jogos e defender restrição dura à publicidade do setor.
Três dos principais nomes na disputa convergem para um cerco regulatório. A diferença está no instrumento: decreto de proibição, projeto de lei com taxação ou portaria de restrição publicitária. Para operadores e plataformas, o risco jurídico escala independentemente do vencedor.
Agro e juros: Zema mira o custo de produção
Em Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) concentrou a narrativa no campo. Em Pouso Alegre e Varginha, defendeu mais crédito para o agronegócio, criação de seguro-safra e queda de juros para viabilizar maior nível de produção. A fala mira o custo de capital — variável que decide margem do produtor e atratividade de fundos de investimento no setor.
O candidato não detalhou fontes de funding para o seguro-safra ampliado nem mecanismo para redução da Selic fora da autonomia do Banco Central. O mercado acompanhará se a proposta ganha corpo em eventual governo ou se fica no palanque.
Petróleo em Sergipe: Flávio Bolsonaro aposta em receita estadual
No Nordeste, Flávio Bolsonaro (PL) fez carreata em Aracaju e prometeu investir na produção de petróleo no estado: “Essa riqueza que Deus deu também para o estado de Sergipe, nós vamos tirar lá do fundo do mar e trazer para o povo sergipano”. O discurso acena para royalties e participações governamentais, mas não menciona licenciamento, Petrobras ou marco regulatório do pré-sal.
No mesmo palanque, o candidato repetiu pautas de segurança pública — redução da maioridade penal, castração química, CNH para menores — que não têm impacto direto na economia, mas sinalizam base eleitoral e estilo de gestão.
Outras agendas: rua, debates e silêncio
- Renan Santos (Missão): Minas e Bahia com discurso de redução de impostos e custos estatais — genérico, sem números.
- Rui Costa Pimenta (PCO) e Samara Martins (UP): Atos em São Paulo e Florianópolis; participaram de debates em podcasts de nicho.
- Wilson Grassi (Democrata), Hertz Dias (PSTU), Clariana Barão (DC), Edmilson Costa (PCB): Agendas entre entrevistas, debates temáticos e eventos locais.
- Leonardo Avalanche (PRTB): Não divulgou agenda.
O que observar na semana decisiva
A campanha entra na reta final com três vetores de risco regulatório claros para investidores: (1) velocidade e formato da proibição das bets; (2) desenho de subsídios e seguro para o agro; (3) gestão de ativos de óleo e gás em novos governos estaduais. Nenhum candidato apresentou plano orçamentário detalhado para as propostas.
O TSE alerta para consulta antecipada do local de votação. Quase 1 milhão de brasileiros no exterior estão aptos a votar. O primeiro turno ocorre no domingo, 4 de outubro. Até lá, cada carreata e entrevista funciona como termômetro de prioridades legislativas e decretos do dia 1º de janeiro.
