A mato-grossense Myllena Nogueira, 21, conquistou a medalha de prata em Tecnologia da Moda no WorldSkills Shanghai 2026, deixando para trás competidores de mais de 70 países. Mas a trajetória até o pódio expõe uma lacuna crítica na formação de talentos que o setor produtivo ainda subestima.
O palco onde o Brasil provou competitividade
A edição de 2026 reuniu 1,4 mil jovens profissionais distribuídos em 64 ocupações técnicas. Realizada a cada dois anos, a WorldSkills funciona como uma olimpíada da educação profissional, onde provas práticas seguem padrões internacionais de qualidade, produtividade e segurança.
Na modalidade de Myllena, o ouro ficou com a chinesa Na Yu. O pódio completou-se com espanhol, sul-coreano e francesa — nações com tradição industrial consolidada. A brasileira superou todas, exceto a anfitriã.
Da garagem de casa para a precisão industrial
Aos 14 anos, Myllena ganhou dos pais a primeira máquina de costura. O pai ensinou os primeiros pontos, transformando um hobby doméstico em base técnica. Aos 21, aluna do Senai Porto em Cuiabá, ela enfrentou quatro dias de provas que exigiam interpretar projetos complexos, selecionar materiais, gerir tempo e resolver problemas em tempo real.
O regulamento avalia não apenas a execução, mas planejamento, criatividade e controle de qualidade — competências que a indústria clama por encontrar no mercado.
Mato Grosso como celeiro de medalhas técnicas
Myllena integrou uma delegação de 71 brasileiros, cinco deles mato-grossenses. Os demais representantes do estado competiram em:
- Construção em concreto: Geovanny Gabriel e Paulo Eduardo
- Marcenaria de Estruturas: João Vitor Maul
- Tecnologia de Veículos Ferroviários: João Vitor Gomes
O estado acumula histórico relevante: bronze em Formas para Concreto (2015, Brasil), ouro em Manufatura Integrada e bronze em Formas para Concreto (2017, Abu Dhabi) e bronze em Manutenção Industrial (2024, Lyon).
O que a indústria deve extrair desse resultado
A preparação de Myllena envolveu simulações idênticas aos desafios reais, domínio de ferramentas digitais e gestão de processos sob pressão. São exatamente as habilidades que empresas relatam faltar em contratações recentes.
O Senai Porto, onde ela se formou, estruturou o treinamento em ciclos de avaliação contínua — modelo que grandes corporações começam a replicar em programas internos de upskilling.
O que observar daqui para frente
A próxima edição ocorre em 2028 e a tendência é ampliação de ocupações ligadas à transição energética e manufatura avançada. Para gestores, o caso sinaliza dois movimentos: a educação profissional técnica, quando bem executada, entrega profissionais prontos para complexidade real; e o investimento em formação de base — como a máquina de costura aos 14 anos — continua sendo o diferencial invisível nos currículos mais competitivos.
