Cultura

O último legado de Rick: A lição de mentoria que ele deixou inacabada…

Rick, cantor sertanejo da dupla Rick e Renner, em foto de divulgação
Rick, da dupla com Renner, deixou projeto de mentoria para nova dupla sertaneja antes de falecer em acidente de helicóptero.

A queda do helicóptero em Santa Catarina calou uma das vozes mais marcantes do sertanejo, mas revelou um projeto inédito que mudaria a trajetória de uma nova dupla. Rick, da parceria com Renner, foi sepultado no dia 24 em Sorocaba (SP), deixando para trás não só sucessos, mas uma promessa de produção artística selada dias antes do acidente.

A validação que veio do mérito, não do sangue

Manoel Filho, primo do cantor e conhecido artisticamente como Rafael, define o parente como um “professor” na música. A frase resume a dinâmica que todo profissional busca: a mentoria genuína. Rick ouviu o trabalho da dupla Rafael e Thiago Mendonça e decidiu gravar a voz na música “O Chorão”.

O critério usado pelo veterano escancara uma lição de gestão de talentos: “Não é porque você é meu primo, é porque eu senti que vocês têm talento. A dupla é muito boa”. A aprovação baseada em desempenho, e não em nepotismo, é o padrão-ouro que muitas empresas ainda falham em adotar.

O projeto interrompido e o ativo póstumo

A colaboração não se limitava ao áudio. O cronograma previa a gravação de um videoclipe, com datas e formato a serem definidos em uma ligação que nunca aconteceu. A música, já disponível no YouTube, transforma-se agora em um ativo póstumo de valor inestimável para os novos artistas.

Para o mercado fonográfico, o episódio ilustra dois vetores críticos:

  • Velocidade de execução: A janela entre a aprovação e a tragédia foi estreita; projetos paralisados por burocracia correm risco de nunca saírem do papel.
  • Gestão de catálogo: A voz de Rick em “O Chorão” gera direitos conexos e autorais que demandarão estrutura sucessória clara nos próximos meses.

Risco concentrado: quando a liderança viaja junto

O acidente do dia 21 vitimou cinco pessoas: o cantor, o empresário Bruno Avelar, o videomaker Paulo Soares, o piloto Antônio Roberto Nóbrega de Araújo e o copiloto Leopoldo Barros Teixeira. A composição da aeronave expõe uma falha clássica de governança corporativa e gestão de risco: a concentração de decisores-chave em um único vetor de transporte.

Empresas de médio e grande porte costumam estabelecer políticas que impedem CEO, CFO e heads estratégicos de voarem juntos. No ambiente artístico, onde a logística é muitas vezes terceirizada e informal, essa barreira de proteção costuma não existir.

De Monte do Carmo ao topo: a construção de uma marca perene

Batizado Geraldo Antônio de Carvalho, Rick nasceu em 5 de dezembro de 1966, quando o Tocantins ainda era território goiano. A trajetória inclui passagem rápida pelo governo estadual e mais de quatro décadas de casamento com Geralda Helena, deixando dois filhos e quatro netos.

Essa base familiar sólida contrasta com a volatilidade da carreira artística. A longevidade da união e a sucessão familiar (filhos e netos) sugerem uma estrutura patrimonial que, se bem planejada, garante a perenidade da marca “Rick & Renner” além dos palcos.

O que observar daqui para frente

O desfecho dessa narrativa depende de três frentes que impactam diretamente herdeiros, sócios e o mercado:

  • Investigação aeronáutica: O laudo final da queda ditará responsabilidades civis e securitárias, afetando o espólio e as empresas envolvidas.
  • Lançamento do videoclipe: A finalização e divulgação de “O Chorão” testarão a capacidade da equipe de Rick e da nova dupla de transformar luto em produto rentável sem soar oportunista.
  • Gestão do espólio artístico: A definição de quem administra o catálogo, a imagem e os direitos do cantor será o termômetro da solidez do planejamento sucessório iniciado há 40 anos.

Rick partiu no auge de uma nova função: a de padrinho artístico. O mercado observa agora se o legado de mentoria terá continuidade estruturada ou se ficará restrito a uma gravação final no YouTube.