Uma professora do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) em Cuiabá está entre os 12 finalistas do Prêmio Educador Nota 10, selecionada entre mais de 3,9 mil inscrições. O motivo? Ela fez os alunos pararem de decorar fórmulas e começarem a criar bioplásticos, jogos inclusivos e soluções para saúde mental — tudo dentro da sala de aula.
Josane Cunha desenvolveu o MIPIPEQ, metodologia que coloca estudantes de Química Orgânica para pesquisar, prototipar e defender produtos reais a cada semestre. O resultado extrapola notas: já são mais de 1,2 mil jovens impactados em uma década.
Como funciona a metodologia que virou caso nacional
Em vez de provas tradicionais, a turma forma grupos e recebe temas como fármacos, neurotransmissores, frutos do Cerrado, inseticidas naturais ou biopolímeros. O desafio: em dois a três meses, transformar o conteúdo em um produto, protótipo ou solução com relevância social — inclusão, saúde, sustentabilidade ou cultura.
A professora atua como orientadora e mediadora. Cada equipe produz resumo científico, testa ideias, ajusta rotas e apresenta o trabalho para a turma. Por semestre, 80 a 90 alunos participam; por ano, nascem de 12 a 16 projetos completos com seus respectivos artigos.
Do Cerrado para o mundo: projetos que saíram do papel
A lista de invenções impressiona pela diversidade e maturidade técnica:
- Cerrado Atômico: jogo didático de Química Orgânica acessível para estudantes cegos e daltônicos, testado no Instituto dos Cegos de MT e apresentado na FEBRACE (USP).
- Química das Emoções: pesquisa que conecta funções orgânicas à saúde mental, levada a eventos científicos nacionais.
- Bioplásticos de casca de manga: transformação de resíduo agroindustrial em material biodegradável.
- Jogos sobre inseticidas naturais e produtos com frutos do Cerrado, unindo saber tradicional e química moderna.
O estudante Eduardo Rodrigues, 18 anos, coautor do Cerrado Atômico, resume: “A proposta surgiu da necessidade de criar uma maneira diferente de aprender Química, principalmente para quem tem deficiência visual”.
O que muda quando o erro vira ferramenta
A especialista em educação científica Elane Soares aponta a diferença central: “Uma prática pontual ensina apenas sobre Química. Um projeto ensina a fazer Química”. No modelo investigativo, o aluno formula hipóteses, testa, analisa falhas e decide novos caminhos — em vez de buscar a resposta “certa” pré-determinada.
Essa postura explica por que ex-alunos do MIPIPEQ chegam a eventos como o Congresso Brasileiro de Química, a MECTI, a FEBRACE e a FEBIC não como visitantes, mas como autores de trabalhos técnicos. O grupo QuiConecta, criado para dar continuidade às pesquisas, funciona como ponte entre a graduação e a iniciação científica.
Dez anos para mudar a relação dos jovens com a Ciência
A metodologia nasceu em 2013 e ganhou aplicação sistemática em 2016, depois que Josane percebeu o abismo entre o conteúdo programático e a percepção dos estudantes: a Química era vista como abstrata, decorativa e distante da realidade.
“Queria que percebessem que aquilo que aprendem pode ajudá-los a compreender o mundo, criar, inovar e transformar a realidade ao seu redor”, diz a professora. A indicação ao prêmio — categoria Inovação e Tecnologia — será decidida em 10 de novembro, na Pinacoteca de São Paulo.
O que observar daqui para frente
O modelo do MIPIPEQ demonstra como a aprendizagem baseada em projetos (PBL) pode escalar dentro da rede pública federal sem depender de grandes aportes — o motor é a autonomia estudantil. Se a premiação trouxer visibilidade, a tendência natural é a replicação da estrutura em outros campi do IFMT e em redes estaduais que buscam alternativas ao ensino expositivo tradicional.
Para gestores educacionais e investidores em edtech, o caso sinaliza: metodologias que exigem produção autoral, trabalho em equipe e comunicação científica formam competências que o mercado disputa — e que nenhuma prova de múltipla escolha consegue mensurar.
