O Brasil tem maioria feminina nas urnas, mas minoria esmagadora no poder. Enquanto sufragistas conquistaram o voto há quase um século, o Parlamento segue dominado por homens — e as consequências aparecem nas leis que regem o corpo da mulher.
Dados atuais mostram que mulheres ocupam apenas 18% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 19% no Senado. Não chega a duas em cada dez parlamentares. Em um país onde a população feminina supera a masculina, a disparidade não é apenas estatística: ela molda quais pautas avançam, quais são enterradas e quem decide sobre direitos reprodutivos.
Por que a representação direta muda o jogo legislativo
A presença feminina no Legislativo não é questão de cota ou simbolismo. Três fatores práticos explicam o impacto direto:
- Espelho da sociedade: se metade do eleitorado é mulher, a ausência delas no parlamento cria um déficit democrático real.
- Diversidade de vivência: pautas como licença-maternidade, creches, saúde reprodutiva e violência doméstica ganham urgência quando quem legisla carrega essa experiência na pele.
- Combate à violência de gênero: leis de proteção avançaram quase exclusivamente pela articulação de bancadas femininas.
Foi assim com a Lei Maria da Penha, relatada por Jandira Feghali (PCdoB) e construída a “muitas mãos, mãos de mulheres, já que sabemos onde nos doem os calos”, nas palavras da advogada Leila Barsted. Também com a Lei Lola, de autoria de Luizianne Lins (PT), que criminaliza a misoginia na internet.
Violência dentro da casa que deveria proteger
O paradoxo é brutal: mulheres eleitas para legislar em defesa de outras mulheres tornam-se alvo de violência no próprio exercício do mandato. Casos emblemáticos ilustram o padrão:
- Isa Penna (PCdo-SP) foi assediada pelo deputado Fernando Cury durante sessão na Alesp, diante de colegas.
- Maria do Rosário (PT-RS) ouviu do então deputado Jair Bolsonaro que “não a estupraria porque não merecia”.
- Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) enfrentou ameaças sistemáticas que quase a afastaram da política.
Esses episódios não são isolados. Eles revelam uma cultura institucional que tolera a intimidação de gênero como ferramenta de silenciamento. A violência política contra mulheres funciona como barreira de entrada e permanência no poder.
Corpos femininos, decisões masculinas
Enquanto a representação segue baixa, pautas sensíveis avançam sem debate plural. Projetos que restringem direitos reprodutivos tramitam em ritmo acelerado, muitas vezes na calada da noite, articulados por maiorias masculinas que usam o tema como moeda de troca política.
O contraste com a realidade nas ruas é gritante:
- Uma mulher morre a cada dois dias por aborto inseguro no Brasil.
- Um estupro é registrado a cada seis minutos.
- Quatro feminicídios ocorrem, em média, por dia.
São números que exigem respostas legislativas urgentes — mas a composição do Congresso não reflete a urgência de quem vive essa realidade.
O que observar nas próximas eleições
O caminho traçado pelas sufragistas segue aberto: o voto. A diferença é que hoje a ferramenta é eletrônica, rápida e secreta. Nas próximas disputas legislativas, três indicadores merecem atenção de quem acompanha o cenário político e seus reflexos nos negócios e na sociedade:
- Evolução da bancada feminina: se o percentual sair da casa dos 18% para algo acima de 30%, a dinâmica de comissões e relatorias muda estruturalmente.
- Distribuição por partidos: concentração em poucas legendas limita poder de veto; pulverização amplia influência transversal.
- Pautas prioritárias das eleitas: segurança pública, saúde da mulher e economia do cuidado tendem a subir na agenda com mais vozes femininas no plenário.
A representação não resolve tudo, mas sem ela, o diagnóstico segue incompleto — e as leis, descoladas da vida real de metade da população.
