Economia

Guia do Geledés revela: como acessar direitos de quem cuida no Brasil

Capa do guia do Geledés sobre direitos de cuidadoras no Brasil
Manual do Geledés ensina como acessar benefícios para quem realiza trabalho de cuidado no Brasil.

O Geledés – Instituto da Mulher Negra lançou nesta sexta-feira (25) um manual prático que ensina o passo a passo para conquistar benefícios estatais voltados a quem exerce trabalho de cuidado. A publicação chega num momento em que a Política Nacional de Cuidados, sancionada em dezembro de 2024, ainda é desconhecida pela maior parte dos potenciais beneficiários.

O documento responde a duas perguntas urgentes: quais direitos existem hoje e como efetivamente acessá-los. Mas há um detalhe que muda tudo: o guia não serve apenas para quem cuida profissionalmente.

O abismo de 10 horas semanais que ninguém contabiliza

Dados da ONU Mulheres expõem a assimetria: mulheres brasileiras dedicam quase dez horas a mais por semana que os homens às tarefas de cuidado. São dez horas que não viram salário, não contam para aposentadoria e não abrem espaço para estudar, empreender ou participar da vida pública.

“A política de cuidado é também uma política de democracia”, resume Gallianne Palayret, representante da ONU Mulheres no Brasil. A frase sintetiza por que o tema saiu da esfera privada e virou caso de Estado.

Para quem o guia foi escrito — e por que isso importa para seu negócio

A publicação segmenta o público em quatro eixos principais, cada um com roteiro próprio de documentos, canais digitais (sougov.br, SUS digital) e políticas específicas:

  • Crianças e adolescentes — creches, assistência estudantil, proteção social
  • Pessoas idosas — lares de acolhimento, cuidadores domiciliares, benefícios de prestação continuada
  • Pessoas com deficiência — reabilitação, tecnologia assistiva, inclusão escolar e laboral
  • Trabalhadores do cuidado (remunerados e não remunerados) — domésticas, babás, cuidadores de idosos, educadores sociais, mães-solo, lideranças comunitárias

Há ainda capítulo dedicado a grupos em vulnerabilidade aguda: famílias em extrema pobreza, parentes de vítimas de feminicídio, populações indígenas e quilombolas, imigrantes e pessoas em privação de liberdade.

O que muda com a lei de dezembro de 2024

A Política Nacional de Cuidados instituiu diretrizes para expandir a rede de creches, criar lares de longa permanência para idosos e qualificar a formação de cuidadores. O guia do Geledés traduz o texto legal em linguagem operacional: quais formulários preencher, onde protocolar, prazos médios de resposta.

Mas a implementação depende de estados e municípios aderirem ao sistema nacional — processo que ainda engatinha na maioria das capitais.

O efeito cascata sobre a força de trabalho formal

Quando uma trabalhadora doméstica consegue acessar creche integral para o filho, ela ganha previsibilidade de jornada. Quando uma mãe-solo obtém benefício de prestação continuada para o filho com deficiência, ela pode aceitar emprego formal sem medo de perder a renda de sobrevivência.

Empresas que contratam mão de obra feminina intensiva — varejo, serviços, saúde — sentem o impacto direto na rotatividade e absenteísmo. O guia, portanto, não é apenas um instrumento de direitos humanos; é ferramenta de gestão de risco trabalhista.

O que observar nos próximos meses

Acompanhe a adesão dos entes federados ao Sistema Nacional de Cuidados e a publicação de editais para construção de equipamentos públicos (creches, centros-dia, casas de acolhimento). Municípios que estruturarem a rede primeiro terão vantagem competitiva na atração e retenção de talento feminino — e no cumprimento de metas ESG ligadas a equidade de gênero.

O guia completo está disponível no site do Geledés. Para gestores de RH, assistentes sociais e lideranças comunitárias, a leitura imediata dos capítulos correspondentes ao seu público-alvo poupa semanas de tentativas frustradas nos canais oficiais.