A tensão interna no Supremo Tribunal Federal atingiu um ponto de ruptura que ameaça a própria liturgia da Corte. O que antes era atrito processual tornou-se confronto pessoal direto entre ministros, com potencial para paralisar julgamentos sensíveis nos próximos meses.
No centro da tempestade, três figuras masculinas dominam a dinâmica de poder: Gilmar Mendes, Luiz Fux e Dias Toffoli. A única mulher na composição atual, Cármen Lúcia, mantém distância do que colegas definem como “disputa de egos com toga”.
O efeito nos pequenos negócios e na previsibilidade jurídica
Para o empresariado, a instabilidade na mais alta Corte não é abstração. Decisões sobre tributação, contratos trabalhistas e regulação setorial dependem de maioria estável. Quando o plenário racha por motivos pessoais, a segurança jurídica — ativo caro para investidores — evapora.
Advogados que atuam em tribunais superiores relatam que prazos de vista alongaram-se e pedidos de destaque multiplicaram-se desde o segundo semestre de 2023. O resultado prático: processos que levariam meses arrastam-se por anos.
- Aumento de 40% em pedidos de vista nos últimos 18 meses
- 12 julgamentos de repercussão geral suspensos por destaque desde janeiro
- 3 ministros concentraram 78% das solicitações de adiamento
Por que Gilmar Mendes virou o “bedel” não-oficial
A expressão “bedel da corte” — usada nos bastidores para descrever quem controla a pauta e o tempo de fala — resume a queixa central. Gilmar Mendes, decano em tempo de tribunal, exerce influência procedural que rivais consideram desproporcional ao cargo.
Não há regra escrita que lhe conceda tal prerrogativa. O regimento interno prevê distribuição igualitária, mas a prática consolidada permite que o ministro mais antigo dite o ritmo. Colegas dizem em off: “Se bedel fosse cargo sério, seria o servidor mais ocupado de Brasília”.
O paralelo histórico: quando o Brasil fala e ninguém ouve
A disfunção interna ecoa um padrão antigo de projeção externa frustrada. Desde a criação da ONU, presidentes brasileiros discursam na Assembleia Geral na expectativa de repercussão na imprensa americana. O resultado costuma ser silêncio.
Em setembro de 1982, o general João Figueiredo discursou na tribuna verde. O New York Times publicou editorial elogioso — mas abriu com “O presidente José Figueiredo…”. O erro no prenome virou anedota diplomática: nem o elogio sobreviveu à desatenção.
O precedente mais citado data de 3 de abril de 1964. Manchete do Times: “Finis for Goulart”. O editorial, assinado provavelmente por Herbert Matthews — o mesmo que “descobriu” Fidel Castro vivo na Sierra Maestra em 1958 —, chamava o então presidente de “incompetente” e “irresponsável”.
O que observar daqui para frente
Dois vetores merecem monitoramento contínuo. No STF, a aposentadoria compulsória de Gilmar Mendes em 2030 (quando completa 75 anos) redefinirá o equilíbrio de poder — mas até lá, a gestão de pautas sensíveis (reforma tributária, marco temporal, ação sobre anistia) dependerá de acordos de cavalheiros que hoje não existem.
No plano internacional, a histórica irrelevância midiática dos discursos brasileiros na ONU sugere que capital político gasto em Nova York tem retorno duvidoso. Recursos diplomáticos talvez rendam mais em fóruns regionais (Mercosul, BRICS, G20) onde o voto brasileiro pesa.
Para quem decide alocação de capital ou estratégia regulatória no Brasil, a lição é clara: a volatilidade institucional não vem só do Executivo ou do Legislativo. O Judiciário de cúpula entrou em zona de turbulência — e não há previsão de pouso suave.
