Internacional

O plano de Washington para o Brasil: o que Flávio Bolsonaro prometeu aceitar

Flávio Bolsonaro e Donald Trump apertando as mãos com bandeiras do Brasil e EUA ao fundo, simbolizando alinhamento político
Análise aponta subordinação da economia brasileira aos EUA em eventual governo Flávio Bolsonaro, seguindo modelo Trump-Maduro.

Uma análise recente traça um paralelo direto entre a política externa pretendida para um eventual governo Flávio Bolsonaro e o acordo firmado por Donald Trump com a Venezuela de Nicolás Maduro. O cerne da argumentação aponta para uma subordinação da economia brasileira aos interesses americanos, com riscos concretos para setores estratégicos e para a estabilidade democrática.

O precedente venezuelano: petróleo por reconhecimento

Em agosto de 2024, a administração Trump fechou um acordo com o regime de Maduro que permitiu a empresas americanas acessar petróleo venezuelano em troca de flexibilizações políticas. A oposição venezuelana, incluindo o economista Ricardo Hausmann (Harvard), classificou o ato como uma traição: o uso do poder dos EUA para “ir para a cama com os opressores” em vez de promover a liberdade.

O senador Marco Rubio, peça-chave na diplomacia americana para a região, foi alvo de críticas severas de ambos os lados do espectro político sul-americano — tanto da direita venezuelana quanto de setores do PT brasileiro — pela condução desse processo.

Comércio exterior: a conta que não fecha para o Brasil

Segundo o cenário projetado, a diretriz para o Brasil seria clara: comprar dos EUA mesmo que a China ofereça preços menores, e vender aos EUA mesmo que os chineses paguem mais. Na prática, isso implica:

  • Perda de autonomia comercial: necessidade de permissão para exportar minérios estratégicos.
  • Tecnologia e soberania: descontinuidade do Pix e aquisição de aeronaves inferiores às da Embraer.
  • Desindustrialização forçada: setores internacionalmente competitivos passariam a operar para enriquecer a economia americana.

Equipe econômica: promessas de campanha vs. realidade de mercado

Nos bastidores da Faria Lima, assessores ligados a Paulo Guedes acenam com cortes de gastos drásticos caso Flávio seja eleito. A credibilidade dessas promessas, porém, esbarra no histórico recente: em 2018, o plano oficial previa zerar a dívida pública em um ano via venda de imóveis da União — meta que se mostrou irrealizável.

A análise sugere que o “verdadeiro programa” não nasce no mercado financeiro brasileiro, mas em articulações diplomáticas em Washington, o que torna as promessas de austeridade doméstica secundárias diante das condicionantes externas.

Risco institucional: o alerta de Levitsky

O cientista político Steve Levitsky, coautor de Como as Democracias Morrem, alertou em entrevista recente para a possibilidade real de um governo Trump não reconhecer uma eventual vitória eleitoral de Lula em 2026. Esse cenário abriria espaço para novas ofensivas da extrema direita global contra a democracia brasileira.

A lógica seria a mesma aplicada à Venezuela: governos que dependem de voto popular tendem a resistir a acordos lesivos à soberania nacional; já governos com viés autoritário aceitam esses termos em troca de apoio externo à sua permanência no poder.

O que observar daqui para frente

Para investidores e empresários, o monitoramento deve focar em três frentes: a formalização do comitê de transição mencionado por Marco Rubio, a reação do agronegócio e da indústria de defesa (Embraer) à perda de mercados na China, e a evolução do discurso sobre integridade eleitoral nas relações bilaterais. A convergência entre alinhamento geopolítico automático e fragilidade fiscal interna desenha um cenário de alta imprevisibilidade para ativos de risco nos próximos ciclos.