Economia

O segredo que o dono da Multilaser revelou sobre a escala 6×1 e o “Custo Brasil”

Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho da Multilaser, quebrou o consenso entre grandes empresários ao defender abertamente o fim da jornada 6×1. A declaração contraria o discurso de que a medida geraria demissões em massa ou inflação imediata nos preços.

Para ele, o verdadeiro vilão da competitividade nacional não é o descanso do trabalhador, mas um conjunto de distorções que ele chama de “privilégios do Estado”. A fala reacende um debate que promete dominar a pauta econômica nos próximos anos.

Por que a IA torna a escala 6×1 insustentável

O argumento central de Ostrowiecki bebe de uma constatação tecnológica: em um cenário onde inteligência artificial e robótica avançam, manter uma parcela relevante da força de trabalho sem dois dias consecutivos de folga é “inaceitável”.

Ele reconhece que haverá custo econômico na transição. Parte desse custo pode, sim, chegar ao preço final do produto. No entanto, descarta o fantasma do desemprego em massa, citando o histórico de reduções de jornada anteriores: a economia sempre se adaptou.

O empresário resume a equação: o ganho de qualidade de vida para o trabalhador supera o impacto financeiro transitório. A posição o coloca em rota de colisão com entidades de classe que tradicionalmente travam essa pauta no Congresso.

A conta que ninguém faz: o que realmente encarece o Brasil

Se o fim da 6×1 tem um preço, Ostrowiecki aponta o dedo para itens que, somados, pesam muito mais na estrutura de custos. Ele lista quatro “culpados” clássicos:

  • Custo Brasil: burocracia, logística deficiente e insegurança jurídica;
  • Carga tributária sobre o consumo: uma das mais altas do mundo;
  • Juros reais estratosféricos: custo de capital que asfixia investimento produtivo;
  • Privilégios estatais: supersalários, penduricalhos e crescimento automático de despesas obrigatórias.

“Quem se preocupa com competitividade deveria começar cortando os privilégios do Estado, não o descanso do trabalhador”, disparou. A frase ecoa seu histórico como fundador do Ranking dos Políticos, plataforma de viés liberal focada em transparência fiscal.

O alerta sobre 2027 e a “dieta” que o Estado não faz

Questionado sobre o que espera do próximo governo a partir de 2027, o empresário não titubeou: coragem para atacar a raiz do gasto público. Para ele, o Estado brasileiro é “o único agente da economia que nunca faz dieta”.

Sem reforma administrativa, desvinculação de receitas e revisão de supersalários, argumenta, nenhum arcabouço fiscal se sustenta. O resultado direto, segundo sua visão, é a manutenção de juros altos que “envenenam a economia” e transferem o ajuste para quem produz.

O cenário de recuperações judiciais recordes — como o caso recente da Casas Bahia, credora de R$ 31 milhões provisionados pela Multilaser (pouco mais de 2% da carteira) — reforça o diagnóstico: o risco de crédito real superou os modelos tradicionais, alimentado por juros em patamares que “não estavam no manual de ninguém”.

A “taxa das blusinhas” e a desindustrialização silenciosa

Outro alvo direto foi a lei que zerou o imposto de importação para encomendas de até US$ 50. Ostrowiecki usa um exemplo didático: uma fábrica no Ceará paga cerca de 30% do preço em tributos federais ao longo da cadeia; a concorrente em Shenzhen entra com alíquota zero.

Não entra na conta, segundo ele, o custo Brasil, a burocracia, as multas nem o spread bancário — juros de 15% ao ano no Brasil contra 3% na China. “Só de imposto, não há possibilidade de a empresa brasileira sobreviver nessa faixa de produto”, sentencia.

A previsão é dura: deslocamento de produção e centros de distribuição para a Ásia, com destruição líquida de empregos no varejo e na indústria nacional. A própria legislação prevê relatórios semestrais de impacto; o empresário promete cobrá-los.

O modelo Manaus como prova de conceito

Com fábrica na Zona Franca de Manaus, Ostrowiecki traz a experiência prática para o debate. “Quando o imposto é razoável, a indústria brasileira compete com qualquer uma do mundo”, afirma. Não defende privilégio regional, mas a generalização da redução de tributos sobre o consumo.

Para ele, redução de imposto não é subsídio: é “deixar de cobrar a facada cheia”. A lógica inverte a narrativa de que benefícios fiscais são “bondade” do Estado — são, na visão dele, condição mínima para a existência de atividade produtiva formal.

O que observar daqui para frente

Três variáveis devem ditar o ritmo desse debate nos próximos trimestres: a tramitação da PEC que propõe o fim da escala 6×1 no Congresso, a divulgação dos primeiros relatórios de impacto da isenção de importados (obrigatórios a cada seis meses) e a capacidade do próximo governo de endereçar a reforma administrativa sem sacrificar a base produtiva.

Enquanto isso, a gestão de risco de crédito, a diversificação de canais de venda e a aposta em portfólios de entrada seguem como as únicas “engenharias comerciais” possíveis — mas, como alertou o próprio Ostrowiecki, “não existe engenharia que compense juro de agiota por muito tempo”.