Economia

Brasil em 2026: Recorde de emprego esconde bomba-relógio que ninguém resolve

Brasil 2026: trabalhadores formais e informais contrastam em cenário de emprego recorde e desafios estruturais
Imagem ilustra o paradoxo do mercado de trabalho brasileiro em 2026: recorde de emprego formal convive com informalidade persistente.

O Brasil entra no ano eleitoral de 2026 com os melhores números de emprego da história recente, mas as fissuras estruturais ameaçam virar crises incontroláveis para o próximo presidente. Desemprego em 5,3% e carteira assinada batendo 39,4 milhões convivem com uma informalidade teimosa e a revolução silenciosa dos aplicativos. O que está por trás dessa aparente contradição?

A Pnad Contínua do IBGE, referente ao trimestre encerrado em julho, desenha um retrato dual: ocupação recorde de 58,9% e rendimento em alta, porém 37,5% da força de trabalho segue sem proteção formal. Em 2022, o desemprego beirava 9,1%; a melhora quantitativa é inegável, mas a qualidade desse emprego gera dor de cabeça para economistas e, principalmente, para quem vai governar a partir de 2027.

O efeito “uberização” e a lacuna da CLT

A plataformização do trabalho explodiu: cerca de 2 milhões de brasileiros tinham em apps sua ocupação principal ou secundária em 2025. Para a economista Janaína Feijó (FGV Ibre), a reforma trabalhista de 2017 ficou obsoleta diante desse modelo. “Uma parte desses trabalhadores está totalmente descoberta”, resume.

O motoboy Felipe Zuppo, 38, viveu a transição. Tinha carteira assinada, migrou para apps em 2012 e participou de grupo tripartite no governo Lula que não chegou a consenso. “A lei não foi como gostaríamos. Nós somos trabalhadores e ficamos sem direitos. A gente não quer ser CLT, mas queriam transformar a gente em trabalhador plataformizado pela lei cível”, relata.

Três motivos levam o brasileiro ao trabalho por aplicativo, segundo o IBGE:

  • Flexibilidade: 26,8% (principal razão declarada);
  • Falta de alternativa: 24,6%;
  • Rendimento superior: 20,8%.

MEI: formalização ou “bomba fiscal”?

O Microempreendedor Individual (MEI), criado para trazer informais para a previdência, virou refúgio para empresas fugirem da CLT. Feijó classifica como “bomba fiscal”: trabalhadores sem vínculo empregatício contribuem com apenas 5% de um salário mínimo para o INSS, corroendo a arrecadação previdenciária justamente quando a longevidade acelera.

Enquanto isso, a pejotização avança sobre profissões de alta qualificação. O economista Rodolpho Sartori (Buysidebrazil) cita o “meme que virou realidade”: engenheiros virando motoristas de Uber. O mercado resiste a choques — juros altos não derrubaram o emprego —, mas a alocação eficiente de talento travou.

Formação, networking e o abismo da desigualdade

O descompasso entre o que as universidades formam e o que as empresas precisam agrava a crise. “Networking importa muito, e pessoas de comunidade não têm esse networking”, aponta Feijó. A comunicadora Nicole Guedes, 22, formada em universidade pública, atende em pet shop no ABC paulista. Chegou a ser PJ por flexibilidade, mas hoje comemora a CLT: “Trabalho 6×1, mas tenho benefícios”.

A inteligência artificial adiciona urgência: vagas de entrada — degrau tradicional para jovens — são as mais expostas à automação. Sem degrau de base, a escada de carreira quebra.

O que propõem os presidenciáveis (até agora)

As pré-candidaturas já sinalizam direções opostas para o nó trabalhista:

  • Lula (PT): Regulação de apps com direitos e transparência algorítmica, fim da escala 6×1 (40h sem redução salarial), combate à pejotização e valorização do salário mínimo.
  • Flávio Bolsonaro (PL): Redução gradual do custo do trabalho, contratos mais baratos para jovens (18-24) e 50+, prioridade a beneficiários do Bolsa Família.
  • Romeu Zema (Novo): Regime alternativo à CLT com livre negociação de jornada, férias e remuneração, jornada diária acima de 8h (limite 44h semanais) e menos encargos.
  • Ronaldo Caiado (PSD): Foco em ensino técnico, requalificação e currículos voltados a IA, dados e cibersegurança.
  • Augusto Cury (Avante): Empreendedorismo como antídoto ao desemprego da IA e transformação do Bolsa Família em porta de entrada no mercado.

O que observar daqui para frente

A resiliência do emprego sob juros restritivos sugere que a reforma de 2017 e a “válvula de escape” dos apps criaram um piso mais alto para a ocupação. Mas o teto é frágil: sem ajuste macrofiscal, alerta Feijó, “todos os ganhos podem ser exauridos”. O próximo governo herdará a conta de uma Previdência pressionada por contribuintes de baixo recolhimento (MEI), uma legislação que não alcança o trabalho por plataforma e uma geração qualificada subutilizada. A decisão não é apenas trabalhista — é fiscal, previdenciária e de competitividade. Quem vencer em outubro de 2026 terá de escolher entre remendar a CLT, criar um novo marco regulatório ou assistir à informalidade se tornar a nova regra geral.